Varíola dos macacos: ela poderia ter sido evitada

Por Bruno Garattoni

Em 22 de setembro de 2017, o médico Dimie Ogoina recebeu um caso estranho no seu consultório em Wilberforce, na Nigéria. Era um garotinho de 11 anos com feridas no rosto e no corpo.

Podia ser catapora, mas não era – o menino já tinha contraído essa doença, e se curado, tempos antes. Ogoina suspeitou de uma doença rara: a varíola dos macacos, causada pelo vírus MPXV. Colheu amostras das lesões e mandou para teste. Deu positivo.

Era o primeiro caso no país em quatro décadas. Mas não o único: nos dois meses seguintes, apareceram 41 outros. Ogoina ficou intrigado, porque a doença estava se espalhando de forma estranha. Agora ela infectava principalmente homens jovens (não crianças, historicamente suas maiores vítimas).

Esses homens não viviam no campo, em contato com os animais selvagens que normalmente transmitem o MPXV. Moravam em cidades. E, em muitos casos, os pacientes apresentavam lesões nos órgãos genitais, um sintoma novo.

Isso levou Ogoina a suspeitar que a varíola dos macacos estivesse sendo transmitida diretamente entre humanos, o que até então era considerado muito raro, e também através de relações sexuais, não só pelo contato com a pele do doente ou objetos que ele tocou (aquele menino de 11 anos pegou a doença em casa: os médicos descobriram que dois parentes com quem morava tinham  apresentado sintomas antes dele). O MPXV estava diferente. Havia evoluído, e a doença se tornara mais difícil de conter.

Ogoina começou a tentar alertar as autoridades, e chegou a publicar um estudo a respeito no jornal científico PLoS, um dos mais importantes do mundo. Não só não foi ouvido, como sofreu pressões do governo para ficar quieto. “Me disseram para não falar que a transmissão sexual era possível”, revelou ele agora, em 2022, à emissora americana NPR.

Em 2018, a varíola dos macacos sumiu da Nigéria. Segundo Ogoina, isso foi uma ilusão: as autoridades simplesmente foram parando de testar os doentes, o que derrubou o número oficial de casos.

Mas o vírus continuou se propagando – até que, em 2022, explodiu para o mundo. Análises genéticas confirmaram que o MPXV do surto global (até a conclusão deste texto, havia 30 mil casos confirmados em 88 países) pertence à cepa nigeriana de 2017. Ou seja: o que está acontecendo agora poderia ter sido evitado.

Em 2017, um menino nigeriano foi ao médico com feridas estranhas. Ele estava infectado por uma nova cepa do vírus da varíola símia. A mesma que, agora, está se espalhando por 88 países.

Varíola dos macacos: ela poderia ter sido evitada

publicado em superinteressante

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