Vácuo

Confusão instantânea, massacrando

Coisa comum e monótona

Que num piscar , não é mais transitória

A sensação vêm e me atira no poço

O olhar procura luz, ávido de um clarão

Apenas, que tudo que existe agora

São lágrimas…e folhas no chão

Tudo que sou ou serei parece não importar

A masmorra do pensamento

Só isso existe a machucar

Num instante, anuncia- se o vácuo

Negro, estático e profundo

Olho de perto, é só completar…

De música, de sonhos, de vida

Mas é tão difícil, não vou nem tentar

Digo isso num momento

Depois já estou a escalar

A parede, a caverna, a cova

Erguendo- me a princípio tímida

Depois em um grito libertário

Pronta para uma vida nova…

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Núcleo do Universo

Bem lá dentro, escondido lá no fundo

Em um misto de dor e sonho

Embalsamado em segredos

Pura vontade, desejo e fogo

Pulsa um coração palpitando

Munido de esperança ou desgosto

Cada qual tem um segredo

Que se chama seu ” ser íntimo”

Onde só Ele habita, onde todo é tudo,

Esse lugar esquecido, submerso, encolhido

…mas não só isso

É o centro de toda vida

Onde tudo acontece…

Palco sagrado da existência

Teu núcleo mais escondido…

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A Maldição do Farol…Bem vindos ao lar ( final)

Os jovens acordaram sobressaltados com o sonho que tiveram, mas para não parecerem imaturos ou supersticiosos , não comentaram nada sobre isso um com o outro. Reuniram suas coisas e saíram para o novo dia. O carro parecia estar menos enterrado que na noite anterior, Nando sugeriu que cavassem em torno dos pneus para aliviarem o atrito com a areia. Começaram então a cavar cada qual de um lado. Ofegante pelo esforço, Beto não percebeu que Nando estava muito quieto, só se deu conta quando viu as mãos desesperadas do rapaz tentando agarrar o para choque do carro… Nando estava submergindo na poça de areia…areia movediça…


Ele então levantou horrorizado e com toda sua força tentou arrancar o namorado da lama mortal, mas na ânsia de salvá-lo, desequilibrou- se e caiu, na mesma areia movediça, na mesma maré negra, que eles sonharam e não quiseram compartilhar…nos últimos segundos de vida ainda se tocaram, levemente nos dedos, com tanto amor como tinham minutos antes, onde ainda brilhavam o céu e o sol em seus olhos…em segundo plano, o carro afunda…


O faroleiro agora desce e vêm ao encontro do casal, que não tinha planos de morar no Farol da Enseada, mas que agora vai fazer daqui sua nova casa…lar é onde estamos com quem amamos, não é mesmo?
A noite promete, chegaram novos hóspedes ao farol…

….

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Doideira

Agora e às vezes, enxergo com nitidez.

Olho e vejo tudo como é, claro e chato

Mas dura pouco, quase nada

Lá vou eu pra terra do nunca, outra vez

Neste lugar que só eu conheço

Posso ser de tudo um pouco

Ou tudo junto, dia, hora, ano ou mês

Parece coisa de louco?

Pode apostar que é sim

A terra do nunca é minha, caro colega

É uma doideira só…

Invenções da minha mente

Lá moro eu velha, moça e garotinha!

De dia começa a noite, ou a tarde…

E termina de manhãzinha…

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A Maldição do Farol…Bem vindos ao lar ( parte três)

Beto para de olhos arregalados, puxando Nando pelo moletom.

  • Amor, não pode ser… não saímos da praia.
  • Talvez seja outro farol… só pode.
    Mas o carro continua ali, atolado ainda…e eles se olham estupefatos. Decidem então seguir para o lado oposto, talvez encontrem uma casa. Caminham uns quarenta minutos sem nada avistar, até que a luz da lanterna ilumina um carro, eles se apressam para falar com o motorista, mas chegando mais perto podem ver que é um jipe, atolado na areia…uns cem metros a frente ergue-se um farol… Beto cai de joelhos e começa a chorar…
  • Levanta amor, não, não faz assim…vai ficar tudo bem.
    Nando ajuda o namorado a levantar e dentro de si tenta achar uma explicação plausível para aquilo tudo, tenta, mas não há nenhuma. O vento e a chuva voltam a castigar, inclementes , e os rapazes resolvem passar a noite no farol, pelo menos estarão abrigados.
    Lá fora a tempestade avança, e dentro do edifício o clima é de tensão, preocupados em como irem embora na manhã seguinte, cada um vaga em pensamentos tentando achar uma solução, pelo menos a luz do dia ajudará a situarem -se melhor, tudo fica melhor quando amanhece.
  • Nando preparou uma fogueira, eles comeram e se recostaram nas mochilas, ouvindo o vento uivar na lagoa…o sono chegou para os dois, e no sonho de ambos, eles subiam as escadas em caracol, o faroleiro à frente, com um lampião de querosene, de uniforme antigo e com gestos autoritários, guiando os namorados através da escuridão, chegando ao topo, o homem mostra a eles o entorno do farol, apontando os pontos onde a areia é firme, e onde a maré negra devora tudo que a toca. Ele fala do respeito que devem ter a essa força da natureza, a areia movediça que só existe ali …o farol se alimenta da culpa e dos segredos, a areia suga pra si quem não acredita na força dela. Os rapazes se amam, é uma troca verdadeira, o farol respeita isto, mas a areia têm suas próprias leis e seu próprio julgamento …todo cuidado é pouco.

… continua

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A Maldição do Farol… Bem vindos ao lar ( parte dois )

O dia transcorreu como o esperado, paisagens naturais, banhos de lagoa, picnic e muitos registros de tudo a volta deles. O pôr do sol de tirar o fôlego, depois as estrelas…tudo que eles haviam sonhado estava acontecendo.
Na manhã seguinte, depois de muitos planos noturnos, cedo já estavam a caminho da praia de água doce novamente…desta vez iam conhecer um farol famoso na região, a expectativa era enorme. Passando no mercado abasteceram-se de sanduíches, frutas e água. O dia prometia, repleto de belezas silvestres, natureza e muita emoção. A cumplicidade dos dois era visível e contagiava ao redor. Há uns cem metros do farol, Nando sentiu o carro dar uma “ segurada” na areia, acelerou um pouco…e o carro morreu. Depois de várias tentativas em vão de fazê-lo pegar, eles descem do carro para ver o que aconteceu.

– Amor, você fez a revisão? Pergunta Beto, contrariado.
-Sim, sim…
Mas Nando estava achando estranho demais aquilo. O que aconteceu depois foi mais esquisito ainda…uma tempestade surgiu do nada, galhos voando, relâmpagos e trovões rasgando o céu da tarde, que antes tinha só uma nuvem aqui, outra ali…eles entraram novamente no carro, na esperança que funcionasse, mas ao invés disso o que viram foi o carro balançando e começando a afundar!
Saíram rápido do veículo, com o coração aos saltos… então ambos olharam para o farol, tão imponente e robusto, parecendo um milagre no meio daquela tormenta. Pegaram o lanche no banco de trás e correram para lá, na pressa de se abrigarem da chuva e do vento. A porta estava aberta, há muito ninguém se importava em fechar… Eles entraram sacudindo as roupas e dando risada da situação. Que fazer agora ? Teriam de esperar o clima dar uma trégua… Beto confere o celular, zero sinal. Nando também não têm.
Já está perto das dezoito horas e não tarda a anoitecer, eles resolvem conferir o carro, a tempestade deu uma amainada. O jipe continua lá, enterrado até a metade dos pneus na lama. Nando propõe dormirem ali, mas Beto prefere tentar voltar andando até conseguirem ajuda ou sinal de celular…
Eles pegam as mochilas e a chave e começam a caminhada de volta, o ocaso e as sombras tornam o caminho igual e confuso, mas não ao ponto de meia hora depois eles se depararem novamente com o farol bem a frente deles…

… continua

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Pé na estrada…

Que sempre o céu seja promessa

Do recomeço da estrada

Que cada flor no caminho

A esperança encontrada

Cada árvore uma amiga

Cada pássaro um irmãozinho

Que façamos de cada dia

Um lindo pedaço do caminho

Que não faltem as risadas

Também um tanto de juízo (não muito)

Que todo banco de praça tenha um amigo

Que as pessoas sintam-se amadas

Que toda dor que no momento

O destino nos faça provar

Só nos mostre neste instante

Que a saúde é boa, que a vida é bela

Que devemos ser gratos e aproveitar

Dias de sol, chuva ou trovoada

O que importa é ter o coração aberto

Fé, amor e pé na estrada …

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A Maldição do Farol (final do capítulo)

….

a temperatura amena e a paisagem deslumbrante davam a este dia pinceladas de paraíso. Claro, claro, não poderiam faltar as fotos que recheavam as redes sociais do casal. Aparentemente era uma relação perfeita, mas olhando de perto ninguém é normal, e Lionel por vezes se tornava arrogante e controlador.
Em dado momento Rita afasta-se um pouco mais para olhar o cânion, encantada com a paisagem que se abre a sua frente . Tudo é tão amplo, tão claro quanto o horizonte que a vida lhe proporciona neste momento. Havia garoado na noite anterior, e o chão estava escorregadio naquele local, Lionel mesmo vendo que a moça pisava em local arriscado não foi capaz de alertá-la…e em um milésimo de segundo , Rita se desequilibra , escorrega e fica a beira do precipício, mal conseguindo se segurar. Lionel se aproxima lentamente e demora demais para estender a mão…

Rita despenca de uma altura enorme e cai em um platô abaixo, totalmente alquebrada, mas viva, viva o bastante para pedir socorro a Lionel…que horrorizado ante a perspectiva da companheira ficar inválida ou coisa pior, simplesmente observa, enquanto ela agoniza. Mais tarde , ele aos prantos contará sua versão de que tentou, mas o celular não tinha sinal e que não havia jeito de salvá-la a tempo…

  • Olá querido, saudades?…diz Rita, com a mesma roupa que usava no dia do acidente, e toda deformada pela queda. Ele se encolhe, incrédulo de terror. Lá fora o vento uiva e a trovoada ressoa como que a comemorar mais uma vingança sendo feita no Farol da Enseada.
  • Amor, me perdoe, foi um acidente… você sabe, não fui eu…
  • Ah, com certeza querido, não foi você que me ajudou, você não ficaria com alguém que não pudesse se orgulhar nas fotos, não é mesmo?
  • Não, Rita, por favor… nãoooo!
    Lionel ainda têm tempo de olhar para baixo e ver o que o espera, uma singela queda de vinte metros de escada, bem menos do que a dor do desprezo que ela teve de suportar…

  • Em instantes ele está de pé, ao lado dele Rita, Mirtes, Matias, e tantos outros culpados ou vingativos que julgaram que seus segredos estavam muito bem guardados, e só não esperavam encontrar em seu caminho o Farol da Enseada… lá onde tudo vêm a tona ao sabor das marés da lagoa…ainda posso vê-los , estão entrando na água agora, a lua cheia encanta a todos, até os fantasmas…e a cada tempestade eles voltam…pode apostar!

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