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Farol Cristóvão Pereira Mostardas RS Brasil

Salmão de cativeiro transferiu genes para peixe selvagem

Por Bruno Garattoni

E isso afetou o desenvolvimento dos salmões do mar, que passaram a crescer mais rápido e fazer migrações mais cedo. Foi o que concluiu um grupo de cientistas noruegueses, que mediram o ritmo de crescimento de 6.926 salmões pescados nos rios do país (isso é feito analisando as escamas do bicho) ao longo de sete anos (1).

Os peixes que haviam recebido genes dos salmões de cativeiro eram os que exibiam as alterações. Não é a primeira vez que os salmões de criação escapam de fazendas marítimas e criam problemas: em julho de 2021, um estudo (2) revelou que eles espalharam o PRV-1, vírus que ataca os rins e o fígado dos peixes, na Noruega, Islândia, Dinamarca, EUA, Chile e Canadá.

Fontes 1. Introgression from farmed escapees affects the full life cycle of wild Atlantic salmon. G Bolstad e outros, 2021.2. Aquaculture mediates global transmission of a viral pathogen to wild salmon. G Mordecai e outros, 2021.

Animais escaparam de fazendas de criação e se reproduziram com peixes do mar, gerando descendentes com alterações genéticas e de comportamento

Salmão de cativeiro transferiu genes para peixe selvagem

publicado originalmente em superinteressante

O estranho mundo das estrelas de nêutrons

Por Bruno Vaiano

No outono de 1967, a astrônoma irlandesa Jocelyn Bell detectou um sinal de rádio produzido por tecnologia alienígena. Ou pelo menos essa parecia a única explicação plausível para uma sequência de picos nos gráficos do observatório MRAO, em Cambridge: um pulso de radiação eletromagnética oriundo do espaço que se repetia a cada 1,3 segundo. Bell e seu orientador na pós-graduação, Antony Hewish, batizaram a detecção de Little Green Man 1 (“Homenzinho Verde 1”).

Calhou que não era um extraterrestre. Bell havia descoberto uma estrela de nêutrons. Trata-se de um astro com uma ou até duas vezes a massa do Sol comprimida numa bola com 10 km de raio, menor que a cidade de São Paulo. O resultado é uma densidade altíssima: uma caneca desse material pesa o mesmo que o Everest.

Uma estrela de nêutrons gira em torno do próprio eixo como um peão instável e completa uma rotação em segundos ou frações de segundo. Seu campo magnético de 1013 Gauss, cem bilhões de bilhões de bilhões de bilhões de vezes mais intenso que o da Terra, transforma os polos Sul e Norte em canhões que emitem jatos de radiação. Dependendo da posição da estrela em relação ao nosso planeta, esses jatos ficam apontados para cá em intervalos regulares. Quando isso acontece, bingo: pico no gráfico. Foi esse fenômeno que Bell detectou no MRAO.

15 anos depois, em 1982, a astrônoma brasileira Angela Olinto – hoje reitora da Divisão de Ciências Físicas da Universidade de Chicago – chegou ao MIT para fazer seu doutorado. Em parceria com Charles Alcock e Edward Farhi, ela publicou uma sequência de textos pioneira sobre a possibilidade de que as estrelas de nêutrons escondam, em seu interior, um material inédito para os físicos – mais denso e estável que qualquer núcleo atômico, e capaz de formar astros ainda mais extremos, batizados de estrelas estranhas. Conversamos com Angela para entender o que são elas.

Há estrelas mortas que compactam a massa do Sol numa bola com 10 km de raio. Em seu núcleo, pode se formar o material mais denso e estável já previsto pelos físicos, a matéria estranha. Ela talvez seja “contagiosa” – e transforme tudo que toca em mais de si mesma.

O estranho mundo das estrelas de nêutrons

Publicado originalmente em superinteressante

A febre do planeta

Um político de terno e gravata discursando na abertura de uma das maiores conferências mundiais de 2021. Nada de anormal, até que o plano da câmera se abre, revelando que as pernas dele estão debaixo d’água.

A fala é gravada e transmitida de uma parte de seu país que já foi engolida pelo mar. “Estamos literalmente afundando, mas o resto do mundo também está”, declarou Simon Kofe, ministro de Tuvalu, arquipélago da Oceania com 12 mil habitantes, na abertura da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26).

Além dos moradores dessa pequena nação, estima-se que mais de 250 milhões de pessoas terão que deixar sua casa nas próximas décadas por causa do aquecimento global. Ele tornará alguns lugares mais áridos, outros mais úmidos e alguns serão submersos de vez.

Os cidadãos de Tuvalu e outras regiões litorâneas representam a faceta mais visível do risco, mas nem de longe são os únicos sofrendo com as consequências das mudanças climáticas. Mudanças que são resultado do modelo vigente de produção e consumo e do nosso estilo de vida, que drenam quase o dobro dos recursos que a Terra é capaz de fornecer ao ano.

De brasileiros a siberianos, passando por americanos e australianos, todos, independentemente da classe econômica, já estamos com a saúde em perigo em função dos danos ao meio ambiente e das reações da natureza a esse processo.

desigualdade social aumenta o impacto das ondas de calor, tempestades e outras catástrofes, mas, desta vez, a corda não vai arrebentar só do lado mais fraco. Basta ver as mansões pegando fogo na Califórnia e as enchentes na Alemanha. Todos somos responsáveis pelo problema, vítimas dele e, ao mesmo tempo, parte da solução.

As mudanças climáticas são a maior ameaça à saúde da humanidade e ao mundo em que vivemos, mas muito pouco tem sido feito para detê-las

A febre do planeta

publicado originalmente em Veja saúde

Esta floresta na Austrália está queimando há 6 mil anos

Por Maria Clara Rossini

A Austrália está repleta de reservas florestais. Os moradores de Sydney viajam quatro horas de carro até um parque nacional famoso, onde aproveitam para caminhar, fazer piqueniques e observar pássaros. Com um detalhe: esse parque vive um incêndio que já dura 6 mil anos. Não à toa, a região ganhou o apelido de Burning Mountain– “montanha que queima”.

O incêndio não preocupa os visitantes. Tudo acontece a 30 metros de profundidade do solo, onde existe uma camada de carvão que ocorre naturalmente em todo o planeta. Não há chamas, e sim carvão em brasa que lembra uma churrasqueira em final de festa.

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Há evidências do que está acontecendo debaixo da terra: o chão quente, a fumaça que sai do solo, as cinzas brancas, as rochas vermelhas e amarelas, além de um cheiro de enxofre – resultado da queima dos minerais da montanha. Acima do incêndio não há planta que sobreviva.

O incêndio não ocupa toda a reserva. O pesquisador Guillermo Rein, do Imperial College de Londres, estima que a área queimada tenha cinco e dez metros de diâmetro, e que a temperatura da brasa fique em torno de 1.000 ºC. Ele se move a uma velocidade de um metro por ano, cada vez consumindo mais carvão.

“Onde o incêndio ainda não chegou você vê uma floresta de eucalipto. Onde o incêndio está agora não há nada vivo, nem grama”, disse Rein à ScienceAlert. “E onde o incêndio estava entre 20 e 30 anos atrás, a floresta voltou, mas está diferente. O incêndio moldou a paisagem”.

Como começou o incêndio?

Quando um incêndio desse tipo começa, é quase impossível apagá-lo. Ele se espalha por onde tiver carvão. Há exemplos mais recentes ao redor do mundo: a cidade de Centralia, nos Estados Unidos, foi abandonada devido a um incêndio subterrâneo que se alastra desde 1962. A maioria deles é causado devido à ação humana, como acidentes de mineração.

Burning Mountain é um caso à parte. O incêndio foi descoberto em 1828, quando um morador local confundiu o fenômeno com vulcanismo. No ano seguinte, o geólogo Charles Wilton percebeu que se tratava de um incêndio de carvão subterrâneo. As medições mostram que a brasa se alastrou por 6,5 quilômetros – o que equivale a 6 mil anos de incêndio.

É pouco provável que ele tenha sido causado pela ação humana. Entre as hipóteses estão a queda de um raio e combustão espontânea. Essa última ocorre quando o carvão está perto da superfície, exposto ao oxigênio e ao Sol. A temperatura necessária para iniciar a combustão do carvão varia entre 35ºC e 140ºC.

O incêndio subterrâneo na “Burning Mountain” é considerado o mais antigo da história. Entenda o fenômeno por trás da combustão quase impossível de apagar.

Esta floresta na Austrália está queimando há 6 mil anos

publicado originalmente em superinteressante

Tempo virá…por Cora Coralina

“Uma vacina preventiva de erros e violência se fará.
As prisões se transformarão em escolas e oficinas.
E os homens, imunizados contra o crime,
cidadãos de um novo mundo,
contarão às crianças do futuro, estórias absurdas de prisões, celas, altos muros, de um tempo superado.”

 🌻Cora Coralina

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“Médicos que usam máscara cometem mais erros”. Não é bem assim…

Por Bruno Garatonni

O que a notícia dizia:

Cirurgiões que usam máscara N95 durante as operações apresentam uma redução progressiva no nível de oxigenação no sangue e aumento no ritmo cardíaco, o que acaba resultando em maior chance de cometer erros. Essa é a conclusão de um estudo que acompanhou 53 cirurgiões na Turquia.

Qual é a verdade:

O tal estudo (1) também monitorou cirurgiões que não usaram máscara – e eles tiveram a mesma redução de oxigenação e aceleração cardíaca. Ou seja, essas coisas se devem ao estresse natural de uma cirurgia, não à máscara. São alterações pequenas, consideradas normais. E o trabalho (que voltou a circular agora mas foi originalmente publicado em 2008) não traz qualquer menção ao índice de erros cometidos nas cirurgias – sejam com ou sem máscara.

Fonte 1. Preliminary report on surgical mask induced deoxygenation during major surgery. A Beder e outros, 2008.

Manchete que circulou recentemente pelas redes sociais se baseia na interpretação errada de um estudo de 2008. Entenda o caso.

“Médicos que usam máscara cometem mais erros”. Não é bem assim…

publicado originalmente em superinteressante

A polêmica do cancelamento de palavras

“Criado-mudo, não. O termo correto é mesa de cabeceira. Criado-mudo é um termo racista e surgiu para chamar escravos que ficavam parados ao lado da cama.” O trecho entre aspas aparece no site da Amazon quando um consumidor pesquisa aquele pequeno móvel quebra-galho, no qual você deixa seus óculos, livro, celular ou copo d’água antes de dormir.

A intenção é ótima. Mas a empresa, infelizmente, acabou dando corda para uma informação falsa. Porque não há racismo na expressão “criado-mudo”. Vamos aos fatos: o nome desse objeto é uma adaptação do termo americano dumbwaiter, um pequeno elevador que transporta comida entre os andares de um imóvel, inventado no século 19 (“dumb” é um termo para “mudo”; “waiter”, “mordomo”). Na Alemanha, que não usou mão de obra escravizada em seu território nos tempos coloniais, também há a expressão “criado-mudo” (stummer diener) – é a palavra deles para “cabide de piso”.

O termo pode até ser de mau gosto, pois equipara pessoas a objetos. Mas não tem relação com a escravidão. Outra desinformação na mesma linha, que chegou a ser publicada em uma cartilha da Defensoria Pública da Bahia, é de que a expressão “nas coxas” também seria racista. Ela remeteria a telhas “feitas de argila, moldadas nas coxas de pessoas escravizadas”.

Não há registro de tal prática, nem no Brasil colonial, nem em lugar algum do planeta. Tampouco ela faria sentido. “A tese é facilmente desmentível por uma fartura de argumentos”, escreveu Sérgio Rodrigues, autor de Viva a Língua Brasileira, na Folha. “O anatômico (só gigantes teriam coxas do tamanho das telhas coloniais brasileiras), o funcional (telhas moldadas assim teriam tamanhos e formas tão variados que inviabilizariam um telhado decente) e o econômico (por que ter produtividade tão baixa se era fácil providenciar moldes de madeira?).”

Não há uma etimologia precisa para a expressão “nas coxas” – talvez daí a livre interpretação surrealista relacionando-a à escravidão. O mais provável, porém, é que seja simplesmente uma expressão para “trabalho malfeito” advinda do fato de que um trabalho bem-feito é realizado numa mesa, e não sobre as pernas.

Inventar significados terríveis para palavras sem relação com racismo só atrapalha a luta por um mundo com menos expressões realmente preconceituosas.

A polêmica do cancelamento de palavras

publicado originalmente em superinteressante

O enigma do Alzheimer

Texto Bruno Garattoni e Tiago Cordeiro
Fotos Dulla
Design Natalia Sayuri Lara

Todo mundo esquece coisas, certo? Não tem nada de anormal. Mas o tempo vai passando, e você percebe que está esquecendo um pouco mais. Datas, compromissos, a água fervendo no fogão. É ruim, mas não alarmante. Até que leva o primeiro susto: está na rua e esquece o endereço de casa. Depois lembra. Seu celular some e reaparece dentro da geladeira – sem que você faça a menor ideia de como foi parar ali. Você começa a trocar algumas palavras. Um dia olha para o seu cachorro e pensa: qual é mesmo o nome dele? Preocupada, sua família leva você ao médico, que receita um ou dois remédios. Não faz muita diferença.

Um dia, quando vai tomar banho, você não consegue se lembrar de onde fica o banheiro. Meu Deus. Acaba achando o banheiro e se tranquiliza um pouco… mas qual era mesmo a sequência de movimentos das mãos para abrir a água e ensaboar o corpo? Ensaboar? O que você está fazendo ali? Seu cônjuge bate na porta. Você abre – e leva um susto ao ver um rosto desconhecido. Quem é aquela pessoa? Que casa é essa? Quem é você?

[capitular title=”O”]undefined[/capitular]O Alzheimer é uma doença apavorante. Apavorante e surpreendentemente comum: corresponde a 70% de todos os casos de demência e afeta 38 milhões de pessoas no mundo (1,2 milhão no Brasil). Nos EUA, um em cada nove indivíduos acima de 65 anos tem Alzheimer (a partir dos 85 anos, um em cada três), e ele é a terceira maior causa de morte entre idosos.

Por isso o 7 de junho de 2021 foi tão marcante. Naquele dia a FDA, a agência que regula os medicamentos nos Estados Unidos, autorizou o lançamento do aducanumab, primeiro remédio contra a doença a ser lançado desde 2003. E tinha mais: aquela droga, desenvolvida pelo laboratório americano Biogen, era a primeira a tratar a causa, e não apenas os sintomas do Alzheimer. Uma revolução.

O aducanumab (que é vendido nos EUA com o nome comercial Aduhelm) é um anticorpo monoclonal, ou seja, que foi projetado em laboratório e é produzido a partir de uma única célula, clonada infinitamente – daí o termo “monoclonal”. Trata-se de uma célula de ovário de hamster (conhecida pela sigla CHO), já usada em vários outros anticorpos artificiais. No caso do aducanumab, ela foi modificada geneticamente para produzir anticorpos contra a beta-amiloide: uma proteína cujo excesso no cérebro forma placas que atrapalham a comunicação entre os neurônios, causando os problemas cognitivos típicos do Alzheimer.

Agora existe um remédio que elimina as placas amiloides, apontadas como a causa da doença. Mas há um problema: na prática, ele não funciona. Entenda por que foi liberado mesmo assim – e como essa polêmica pode colocar em xeque o que a ciência achava que sabia sobre o Alzheimer.

O enigma do Alzheimer

publicado originalmente em superinteressante

Anticorpos podem deformar vírus

As pontas dos anticorpos têm o formato exato para se encaixar a determinados vírus, neutralizando-os. As células B, que fabricam os anticorpos, sofrem mutações aceleradíssimas, 1 milhão de vezes mais rápidas do que as mutações no resto do corpo, até que o organismo encontre o encaixe certo. Esse processo se chama hipermutação somática, e é o grande trunfo dos anticorpos no combate a infecções. Mas pode não ser a única.

Cientistas da Penn State University, nos EUA, descobriram que os anticorpos também podem agir de outra forma: enfiando-se na superfície dos vírus, fazendo com que eles sofram deformações e atrapalhando seu funcionamento (1).

Os pesquisadores colocaram um anticorpo humano chamado C10 em contato com os vírus da dengue (DENV) e da zika (ZIKV). Ele conseguiu neutralizar ambos, mas também deformou o DENV – supostamente porque esse vírus tem uma superfície mais irregular.

Segundo os cientistas, a descoberta pode inspirar o desenvolvimento de novos tipos de anticorpo monoclonal (produzido em laboratório), que tenham essa capacidade contra outros vírus, o Sars-CoV-2 inclusive.

Fonte 1. Human antibody C10 neutralizes by diminishing Zika but enhancing dengue virus dynamics. G Anand e outros, 2021.

Estudo revela novo mecanismo de ação do organismo contra infecções.

Anticorpos podem deformar vírus

publicado originalmente em superinteressante