Medicamento para artrite poderá ser usado no tratamento de alopecia

Por Maria Clara Rossini

Poucas pessoas lembram quem ganhou o Oscar de Melhor Filme em 2022. Mas ninguém vai esquecer a grande treta da noite de cerimônia: Will Smith foi até o palco e deu um tapa em Chris Rock após o apresentador fazer uma piada com sua esposa, Jada Pinkett Smith. A brincadeira era sobre a perda de cabelo da atriz, consequência de uma doença chamada alopecia.

A alopecia areata, um dos tipos da doença, ocorre quando o sistema imune começa a atacar os folículos capilares, causando uma queda excessiva de pelos. A doença pode afetar qualquer região do corpo, mas é mais comum que ocorra no couro cabeludo. A alopecia pode ter origem genética ou ser causada por problemas na tireoide, estresse, traumas na região, infecções, entre outras razões.

O mecanismo da alopecia areata não é tão diferente da artrite. Nesse último caso, o sistema imune ataca, erroneamente, os tecidos das articulações. Uma nova pesquisa conduzida pela Universidade de Yale mostra que o tratamento dessas doenças também pode ser semelhante. Em um estudo clínico de fase três, a droga baricitinib (comumente usada no tratamento de artrite) mostrou bons resultados em um terço dos pacientes com alopecia areata.

O estudo analisou 1.200 pacientes que sofrem desse tipo da doença. Eles foram divididos em três grupos: um recebeu 2 miligramas de baricitinib, outro recebeu uma dose de 4 miligramas, e o último grupo recebeu um placebo. O tratamento foi feito ao longo de 36 semanas. A dose de 4 miligramas foi a que mostrou os melhores resultados.

Veja algumas fotos de antes e depois do tratamento.

Os pesquisadores analisaram a eficácia usando uma escala que vai de 0 (sem queda de cabelo) a 100 (perda de cabelo completa). No início do estudo, todos os participantes tinham uma nota de no mínimo 50. Ao final do tratamento, 35% dos pacientes que tomaram 4 miligramas apresentaram uma nota de 20 ou menos.

No grupo que tomou 2 miligramas, 20% dos participantes terminaram o período de teste com uma nota de 20 ou menos. No estudo, a equipe escreve que uma nota abaixo de 20 é considerada um resultado de tratamento significativo para pacientes com alopecia areata severa.

Alguns pacientes também reportaram efeitos colaterais, como acne, infecção no trato respiratório, dor de cabeça e níveis de colesterol elevados. Além disso, o mecanismo de ação da droga envolve “atrapalhar” o sistema imune, o que pode prejudicar o combate a outras ameaças. Pacientes com artrite que já fazem uso do medicamento podem estar mais vulneráveis a infecções.

O que o baricitinib faz é inibir uma proteína chamada Janus kinase, ou JAKs. Essas enzimas estão envolvidas em diversas áreas, inclusive o sistema imune. Os medicamentos inibidores, como o baricitinib, conseguem diminuir a resposta imunológica em alguns pacientes, permitindo que os folículos capilares voltem a crescer.

O possível novo tratamento não é uma bala de prata, mas mostrou resultados animadores em parte dos pacientes. Mais pesquisas são necessárias para avaliar a segurança e eficácia a longo prazo.

A droga baricitinib reduziu a queda de cabelo em um terço dos pacientes em estudo clínico. Entenda a doença que afeta a atriz Jada Smith.

Medicamento para artrite poderá ser usado no tratamento de alopecia

publicado em superinteressante

Sem “cura gay”: como Freud explica a atração entre pessoas do mesmo sexo

Sigmund Freud mantinha um estilo de vida conservador. Proibiu sua esposa de trabalhar, era rígido quanto ao horário das refeições, não admitia palavrão e oferecia flores às mulheres – gardênias eram suas preferidas. Para manter a famosa barba sempre bem aparada, ia todos os dias, religiosamente, ao barbeiro. 

Mas esse conservadorismo todo era da porta da mente para fora. Pois o inventor da psicanálise foi libertário em muitas de suas teses ligadas à sexualidade. Inclusive à homossexualidade.

Achava, por exemplo, que a proposta de “cura gay” era uma aberração. Em 1935, escrevendo para uma mãe americana, que se lamentava por ter um filho homossexual, o Freud deu esta resposta, muito à frente do seu tempo: “Nada há nela [na homossexualidade] de que se deva ter vergonha; não é um vício nem um aviltamento, nem se pode qualificá-la de doença. (…) Diversos indivíduos sumamente respeitáveis, nos tempos antigos e modernos, foram homossexuais, e entre eles encontramos alguns dos maiores dos nossos grandes homens (Platão, Leonardo da Vinci etc.). É uma grande injustiça perseguir a homossexualidade como um crime, além de ser uma crueldade”. 

Esse homem de costumes tradicionais fez, no início do século passado, o que muitas sociedades do nosso tempo ainda não foram capazes: conferiu igualdade aos homossexuais em relação a seus pares héteros. “A investigação psicanalítica opõe-se com extrema determinação à tentativa de separar os homossexuais dos outros seres humanos, como um grupo particularizado.” 

Para se ter uma ideia de quanto sua perspectiva era avançada, foi somente em 1973, quase 40 anos após essa carta-resposta, que a Associação Americana de Psiquiatria finalmente retirou a homossexualidade da sua lista de transtornos mentais.

Segundo a biógrafa de Freud, a francesa Elizabeth Roudinesco, “o que lhe interessava de imediato não era valorizar, inferiorizar ou julgar a homossexualidade, porém compreender suas causas, sua gênese e sua estrutura, do ponto de vista de uma nova doutrina do inconsciente”. 

Neste Dia Nacional do Orgulho Gay, saiba por que o pai da psicanálise foi moderno ao abordar a homossexualidade. Para o pensador, somos todos bissexuais.

Sem “cura gay”: como Freud explica a atração entre pessoas do mesmo sexo

publicado em superinteressante

Pesquisas astronômicas emitem 20 milhões de toneladas de CO2 por ano

Por Rafael Battaglia

Estudos astronômicos que envolvem telescópios terrestres ou espaciais emitem, somados, 20 milhões de toneladas de gás carbônico (CO2), o maior contribuinte do aquecimento global, por ano. É o que descobriu uma recente pesquisa francesa, publicada na Nature Astronomy na última segunda-feira (21). A quantidade de CO2 emitido é equivalente a de países inteiros, como Estônia, Líbano, Bolívia e Croácia.

Para chegar a esse número, a pesquisa considerou somente a construção e a manutenção da infraestrutura telescópios espaciais (como o Hubble e o James Webb) e terrestres, como o Square Kilometre Array, que será o maior radiotelescópio do mundo (e cuja construção começou em 2021). Não foram levados em conta outras atividades, como a energia gasta para manter supercomputadores e os escritórios de laboratórios observacionais nem viagens que cientistas que trabalham neles precisam fazer ocasionalmente.

Telescópios espaciais e terrestres poluem o mesmo que países como Bolívia e Croácia. Estudo alerta que o trabalho científico também deve pensar em soluções sustentáveis.

Pesquisas astronômicas emitem 20 milhões de toneladas de CO2 por ano

publicado em superinteressante

Como escolher o som de despertador perfeito, segundo a ciência

Por Maria Clara Rossini

O “só mais cinco minutinhos” é o terror de quem precisa acordar cedo. Primeiro você aperta o botão “soneca” uma vez, só para curtir uns últimos minutinhos de sono. Depois duas, três vezes. E mesmo com o som do despertador no máximo, você não consegue ficar acordado. Quando vai ver, já está uma hora atrasado.

Ter uma boa noite de sono é o melhor jeito de evitar aquela sensação “grogue” logo ao acordar. Mas escolher um bom alarme também pode ajudar. Uma pesquisa do Instituto Real de Tecnologia de Melbourne, na Austrália, mostrou que alguns tipos de música e frequências podem aumentar o estado de alerta ao acordar.

O seu cérebro não é como um interruptor, que liga e desliga totalmente na hora que quer. As regiões mais importantes para o estado de alerta, como o córtex pré-frontal, demoram mais para “ligar” do que outras áreas. Isso significa que você pode estar mais ou menos acordado, o que causa a sensação “grogue”. O fluxo de sangue para o cérebro é outro fator que influencia essa sensação.

O “só mais cinco minutinhos” é o terror de quem precisa acordar cedo. Primeiro você aperta o botão “soneca” uma vez, só para curtir uns últimos minutinhos de sono. Depois duas, três vezes. E mesmo com o som do despertador no máximo, você não consegue ficar acordado. Quando vai ver, já está uma hora atrasado.

Ter uma boa noite de sono é o melhor jeito de evitar aquela sensação “grogue” logo ao acordar. Mas escolher um bom alarme também pode ajudar. Uma pesquisa do Instituto Real de Tecnologia de Melbourne, na Austrália, mostrou que alguns tipos de música e frequências podem aumentar o estado de alerta ao acordar.

O seu cérebro não é como um interruptor, que liga e desliga totalmente na hora que quer. As regiões mais importantes para o estado de alerta, como o córtex pré-frontal, demoram mais para “ligar” do que outras áreas. Isso significa que você pode estar mais ou menos acordado, o que causa a sensação “grogue”. O fluxo de sangue para o cérebro é outro fator que influencia essa sensação.

Um conjunto de pesquisas da Austrália mostram a frequência e batida mais eficazes em estimular o estado de alerta. Ouça o que seria o “alarme perfeito”.

Como escolher o som de despertador perfeito, segundo a ciência

publicado em superinteressante

Remédio anticâncer pode eliminar o HIV do organismo

Por Bruno Garattoni

O Keytruda (pembrolizumab) é usado desde 2014 para tratar melanoma, linfoma e câncer de pulmão, entre outros tipos. Ele remove um “disfarce” que as células cancerosas usam para driblar o sistema imunológico.

Agora, cientistas americanos constataram que a droga também tem outra utilidade: consegue expulsar o vírus da Aids das células T, onde ele normalmente se aloja (e pode ficar escondido, mesmo quando o paciente não tem mais HIV detectável).

A descoberta (1) ocorreu por acaso, durante o tratamento de pacientes que têm câncer e HIV. Se o efeito for confirmado, pode levar a um novo coquetel anti-Aids, capaz de expulsar totalmente o vírus do corpo.

LEIA MAIS: Imunoterapia: a melhor arma anticâncer

Fonte 1. Pembrolizumab induces HIV latency reversal in people living with HIV and cancer on antiretroviral therapy. T Uldrick e outros, 2022.

Medicamento demonstrou capacidade de expulsar o vírus das células T, onde ele normalmente se aloja e fica escondido

Remédio anticâncer pode eliminar o HIV do organismo

publicado em superinteressante

O bem e o mal do estrangeirismo

Texto Alexandre Carvalho Design e colagem Carlos Eduardo Hara Edição Alexandre Versignassi

[capitular title=”O”]undefined[/capitular] terror dos puristas da língua em Portugal é um youtuber nascido e criado no Engenho Novo, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro: Luccas Neto. Dono do canal infantil Luccas Toon, com 36,9 milhões de seguidores no YouTube, o carioca também é um hit entre as crianças portuguesas. A tal ponto que, em novembro do ano passado, o jornal lisboeta Diário de Notícias publicou uma matéria em tom xenofóbico, reclamando que os miúdos de lá estão cada vez mais a falar “brasileiro”, de tanto assistir Luccas e outros influenciadores daqui.

“Dizem ‘grama’ em vez de relva, autocarro é ‘ônibus’, rebuçado é ‘bala’, riscas são ‘listras’ e leite está na ‘geladeira’ em vez de no frigorífico”, alertou o jornal. “Os educadores notam-no sobretudo depois do confinamento – à conta de muitas horas de exposição a conteúdos feitos por youtubers brasileiros.”

Pais e educadores portugueses estão preocupados. Mas talvez não devessem levar o caso tão a sério. Afinal, mais do que o jeitinho de falar de sua antiga colônia, os lusos usam e abusam de palavras do francês e do inglês – e aí sem a mesma vergonha.

Um exemplo: enquanto, no trânsito daqui, temos em cada cruzamento uma placa indicadora que diz “Pare”, em Portugal a mesma sinalização diz “Stop”. E, lá como cá, o motorista entende muito bem o que deve fazer.

Isso porque o estrangeirismo – a influência de culturas do exterior sobre os costumes e as falas de um povo – é parte da evolução natural de qualquer língua. A forma como nos expressamos se modifica o tempo todo, e um mundo globalizado (fenômeno que não nasceu com a internet – é forte desde as Grandes Navegações, dos séculos 15 e 16) acelera esse intercâmbio linguístico. Tentar proibi-lo é como enxugar gelo. Mesmo assim, já teve político que tentou.

Em 1999, o então deputado federal Aldo Rebelo inventou um Projeto de Lei para limitar o uso de termos estrangeiros no Brasil. Segundo o PL, toda vez que um meio de comunicação de massa, estabelecimento comercial ou peça publicitária usassem uma palavra de fora, teriam de colocar junto a tradução em português.

O projeto excêntrico, claro, não vingou. Até porque, quando um termo de qualquer país é incorporado amplamente nos nossos diálogos e textos, ele na prática deixa de ser estrangeiro. Vira nosso. Todo dicionário nacional está inundado de vocábulos que não brotaram nem em Portugal, nem no Brasil, mas que já são tão de casa quanto receita de caipirinha.

Ou com que palavra de origem portuguesa você pediria uma pizza? O nome dos discos redondos de farinha é um termo italiano cuja primeira menção registrada é do ano 997, na região que mais tarde se tornaria Nápoles. E provavelmente era um estrangeirismo lá também. Há controvérsias, como tudo na linguística, mas tudo indica que a palavra veio do grego pitta – denominação que usamos hoje para o pão sírio.

O mal do estrangeirismo nem está exatamente na substituição de termos, como rooftop no lugar de “terraço”. O problema maior é quando, no afã de pegar algo emprestado de uma língua de fora, deturpamos a lógica da nossa.

Um exemplo? Cada vez mais, brasileiros têm falado e escrito “eventualmente” no sentido de “mais cedo ou mais tarde”, “algo que em algum momento vai acabar acontecendo”… porque esse é o significado de eventually, o termo em inglês. Só que o nosso “eventualmente” sempre quis dizer outra coisa: expressa uma possibilidade, algo que pode ou não ocorrer, ou que acontece ocasionalmente.

Erros semelhantes são o uso do verbo “realizar” no sentido de “perceber’’ e “aplicar” no lugar de “inscrever-se”. Cringe, usado para expressar “vergonha alheia” a partir de 2021, então, é um crime lesa-pátria. No caso, duas pátrias, porque o uso que se deu aqui nunca aconteceu lá fora. No Brasil, virou adjetivo (“ainn, isso é cringe”). Lá fora é verbo. E a expressão correta é cringe worthy (algo digno de constrangimento). Aí complica.

Os donos da língua

Se fosse possível que habitantes de uma região e seus descendentes nunca adotassem termos de outros povos, o Brasil, colonizado por Portugal, não falaria português. É que o vocabulário da nossa antiga metrópole nasceu de uma vitória brutal do latim, a língua oficial do Império Romano, sobre o lusitano, o idioma falado na Lusitânia, território que se estendia entre os rios Douro e o Tejo – e onde viviam os ancestrais dos portugueses desde o Neolítico (10.000 a.C. – 4.500 a.C.).

Sem a incorporação da cultura de uma sociedade (muito) mais poderosa, quando Roma conquistou as tribos lusitanas em conflitos que se estenderam até 138 a.C., os portugueses que colonizaram o Brasil ainda falariam essa língua protoindo-europeia (ou seja, que tem a mesma origem do persa, do hindi, do grego, do germânico e do próprio latim, mas característica o bastante para ter se diferenciado entre as Idades da Pedra e do Bronze).

Rooftop, insight, approach… O Brasil parece cada vez mais inclinado a trocar seu vocabulário todo por termos em inglês. Mas a adoção de palavras de origem estrangeira não tem nada de nova: é tão antiga quanto a capacidade do Homo sapiens de falar, e fundamental para a própria evolução das línguas. Só uma dica: use com moderação.

O bem e o mal do estrangeirismo

publicado em superinteressante

Muito além das vacinas: as promessas do mRNA

Por Bruno Garattoni

“Eu trabalhava todas as noites, escrevendo as propostas. E as respostas sempre vinham: ‘não, não, não’. Cogitei ir para outro lugar, trabalhar com outra coisa. Também pensei: ‘talvez eu não seja inteligente o bastante”, contou a bioquímica húngara Katalin Karikó em uma de suas raras entrevistas, no fim de 2020.

Naquele momento, Karikó estava no topo do mundo: as vacinas de RNA mensageiro (mRNA), que só se tornaram realidade graças ao trabalho dela, começavam a chegar aos braços de centenas de milhões de pessoas. Mas a cientista não havia se esquecido do que passou para chegar até ali. Nem teria como esquecer.

Nascida na Hungria, filha de um açougueiro, Karikó cresceu numa casa de dois cômodos sem geladeira, TV ou água encanada. Ela ia bem na escola, entrou na faculdade e se formou na Universidade de Szeged, no sul do país. Foi trabalhar no Instituto de Bioquímica da cidade até que, em 1985, o governo cortou a verba do laboratório.

Karikó vendeu o carro da família (algo proibido no país, comunista), escondeu o dinheiro dentro de um ursinho de pelúcia e o levou, junto com o marido e a filha, numa viagem até os Estados Unidos – para onde a família emigrou em busca de oportuindades.

Essa nova vida começou bem: ela fez pós-doutorado na Universidade Temple, na Filadélfia, e em 1989 se tornou professora-assistente na Universidade da Pensilvânia. Mas, alguns anos depois, o sonho tinha virado um pesadelo. Ninguém acreditava que os estudos com RNA mensageiro, nos quais Karikó colocava todo o seu esforço, poderiam chegar a algum lugar.

Nada contra a ideia em si, que era ótima. Quando o seu corpo precisa fabricar alguma proteína, ele consulta conjuntos de instruções presentes no DNA: os genes. Aí, num processo chamado transcrição, o organismo fabrica moléculas de RNA mensageiro, que contém cópias de determinados trechos do DNA. Elas vão parar nos ribossomos, dentro das células, que leem aquele código e fazem as proteínas. Pronto.

É como se o seu corpo fosse um computador, e o mRNA fosse o software que roda nele. Esse mecanismo é poderoso e universal: plantas, bactérias e vírus também emp o RNA mensageiro. Se você conseguisse criar e editar mRNA em laboratório, poderia usá-lo para ensinar o corpo humano a fazer quase qualquer proteína – como anticorpos contra vírus, ou moléculas capazes de prevenir e curar doenças. “Você transforma o corpo em produtor de medicamentos”, diz Wesley Fotoran, que é imunologista do Instituto Butantan e pesquisa, em seu pós-doutorado, o uso de mRNA contra malária e câncer.   

O corpo humano rejeitava o mRNA artificial, criado em laboratório. E isso parecia não ter solução.

Um potencial gigantesco. Mas a realidade era diferente. Primeiro, não havia como levar aquele mRNA “artificial” até os ribossomos. Isso exigiu 25 anos de pesquisas, mas acabou dando certo: no começo dos anos 1990, cientistas americanos criaram nanopartículas de gordura para envolver e transportar as moléculas. Elas usam um truque genial, relacionado à acidez das células humanas, para só liberar o mRNA no lugar exato (veja quadro abaixo).

Só que aí apareceu um obstáculo bem maior. Na maioria dos casos, o organismo via aquelas moléculas de mRNA como invasoras – afinal, elas continham se-quências genéticas estranhas, que haviam sido criadas em laboratório e não faziam parte do corpo – e as atacava. Não fabricava as proteínas que você queria ensiná-lo a produzir.

As pesquisas bateram num muro, e não avançavam. A visão predominante na comunidade científica era de que aquilo jamais funcionaria. Karikó tentava e tentava, mas nada dava certo. E o dinheiro foi secando – suas propostas de financiamento para pesquisas começaram a ser sumariamente rejeitadas.

O RNA mensageiro é como se fosse um arquivo executável: contém instruções para que o corpo fabrique determinadas proteínas. Veja como essa tecnologia, que estreou nas vacinas da Covid, se tornou uma aposta para tratar diversas doenças – de colesterol a câncer, de gripe a síndromes genéticas raras.

Muito além das vacinas: as promessas do mRNA

publicado em superinteressante

Em visita ao Brasil, Marie Curie inspirou o início da radioterapia no país

Por Maria Clara Rossini

Chapéu, roupa de banho, escova de dente, duas agulhas de rádio (o elemento químico). Era mais ou menos assim que a mala de Marie Curie estava organizada quando ela saiu de Paris, em junho de 1926. O destino: Rio de Janeiro. O convite partiu da Embaixada do Brasil na França, mas foi o governo francês que bancou a viagem.

Já aos 59 anos de idade e laureada com dois prêmios Nobel (de Física, em 1903, e Química, em 1911), Curie não parecia muito animada com a viagem. Em quase todas as fotos no Brasil ela aparece sentada e sem interesse em olhar para a câmera. A polonesa naturalizada francesa só tinha um objetivo claro: divulgar suas pesquisas sobre radioatividade.

Agenda lotada

Curie ministrou um curso na Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que foi transmitido via rádio (o aparelho, ainda uma novidade tecnológica). Apesar do foco no trabalho, arrumou tempo para aproveitar o hotel no bairro do Flamengo com sua filha, Irène Joliot-Curie, tomar banhos de mar e fazer o clássico roteiro turistão carioca: Corcovado, Pão de Açúcar (já havia o bondinho), Tijuca e Museu Nacional.

Durante os dois meses que ficou no Brasil, estava quase sempre acompanhada da bióloga paulistana Bertha Lutz, uma ativista do feminismo. Esta fazia parte da Federação Brasileira pelo Progresso Femininouma entidade que lutava pelos direitos políticos e inclusão das mulheres na educação e ciência. As ativistas feministas tinham tudo para se tornarem BFFs.

Lutz também acompanhou Curie em São Paulo, onde a química deu palestras na Faculdade de Medicina da USP. Ela também visitou o Instituto Butantã, que 95 anos depois desenvolveria a primeira vacina contra a Covid-19 aprovada no Brasil.

Depois de passar um dia na capital paulista, ela embarcou em um trem na Estação da Luz com destino a Águas de Lindoia. Não para relaxar nas termas, mas para conferir um rumor que circulava entre os cientistas: as águas das fontes lindoienses teriam um pequeno grau de radioatividade. Segundo os jornais da época, ao final da visita, Curie teria confirmado o fato. E estava certa. Medições com equipamentos mais modernos mostrariam depois que que tem mesmo; num grau seguro para a saúde. 

A cientista visitou o primeiro hospital oncológico quando passou por aqui, em 1926. Saiba como foi a experiência da química no Brasil.

Em visita ao Brasil, Marie Curie inspirou o início da radioterapia no país

publicado em superinteressante

A aventura global dos vikings

Por Rafael Battaglia

Texto Reinaldo José Lopes Ilustração Vini Capiotti 

Design Juliana Krauss Edição Alexandre Versignassi

Por volta do ano 1000 d.C., um monumento funerário foi erguido em Stora Rytterne, no interior da Suécia. As runas gravadas na laje do memorial dizem o seguinte: “Gudleif dispôs o cajado e estas pedras em memória de Slagvi, seu filho, que encontrou seu fim no leste, em Karusm”.

Na primeira olhada, a frase não parece dizer muita coisa, certo? Acontece que a última palavra do epitáfio muda tudo. Para a maioria dos especialistas, “Karusm” provavelmente é uma variação de “Khwarazm”. Esse era o nome de um poderoso reino muçulmano que existia num oásis do atual Uzbequistão, bem no miolo da Ásia. Ou seja: Slagvi, filho de Gudleif, morreu muito longe de casa.

E não foi um caso isolado, como mostram outras inscrições e artefatos espalhados por boa parte da Escandinávia. Durante a chamada Era Viking, entre os séculos 8º e 11º d.C., rapazes do interior da Suécia, bem como da Dinamarca e da Noruega, viraram protagonistas de uma versão medieval do mundo globalizado, espalhando-se por tudo quanto é canto da Eurásia: da Irlanda a Bagdá.

Esses sujeitos agiam como piratas sem o menor escrúpulo em muitas ocasiões, mas também estavam de olho em oportunidades comerciais, viravam-se bem como diplomatas e, de vez em quando, resolviam sossegar e se transformavam em prósperos colonos. Nada disso foi fruto de um grande plano – os viajantes da Escandinávia quase sempre atuavam sem comando central, hierarquia militar, ou aparentes objetivos de longo prazo. Mas suas aventuras acabaram estimulando o surgimento de algumas das nações mais poderosas do planeta nos últimos séculos, como a Inglaterra, a França e a Rússia. Sem os vikings, a trajetória histórica desses lugares poderia ter sido bem diferente.

“Vikingando” por aí

Antes de entender como essa saga (aliás, “saga” é uma palavra escandinava) começou, vale a pena pensar um pouco nos termos que costumamos usar. Acontece que, ao menos na Idade Média, “viking” não era uma palavra empregada como designação étnica ou de “nacionalidade”. “Viking” era simplesmente o sujeito que saía por aí “vikingando”, ou seja, fazendo incursões por mar, que podiam ter objetivos guerreiros ou pacíficos. Se você preferir, pode traduzir mentalmente a palavra para “pirata”, como fizemos no parágrafo anterior.

É importante ter isso em mente porque a Escandinávia do começo da Era Viking não passava de uma grande colcha de retalhos. Eram comunidades pequenas e pouco centralizadas politicamente, lideradas por nobres mixurucas que raramente conseguiam impor sua vontade aos lavradores livres que formavam o grosso da população. Alguns desses nobres e seus vizinhos de status “plebeu” às vezes decidiam sair por aí a “vikingar”, numa espécie de empreendedorismo militar-comercial, quando enxergavam oportunidades interessantes nas terras d’além-mar.

A questão, porém, é desvendar o porquê de tantos grupos, espalhados pelas diferentes comunidades escandinavas, terem descoberto que “vikingar” era bom negócio num momento específico, a partir da segunda metade do século 8º d.C. A convenção adotada pelos historiadores é considerar que a Era Viking começou no ano de 793, quando marujos escandinavos roubaram e massacraram os monges que viviam na ilha de Lindisfarne, no nordeste da Inglaterra, mas é claro que esse primeiro ataque não surgiu do nada. Quais foram os ingredientes que criaram os vikings?

Ainda há um debate considerável sobre o tema, e o fenômeno muito provavelmente teve diversas causas. Mas uma das mais importantes é algo que todo mundo entende com facilidade hoje: mais grana circulando pelo mundo.

Acontece que a Era Viking parece tomar fôlego numa época em que a economia do norte da Europa começa a ter uma fase de crescimento considerável de novo, após alguns séculos de baixa causada pelo fim do Império Romano do Ocidente (em 476 d.C.).

A Escandinávia nunca tinha feito parte dos domínios de Roma, que só iam até o oeste da atual Alemanha, mas as evidências da interação com os romanos são muitas no registro arqueológico da região, e isso certamente envolvia comércio e circulação de pessoas. Guerreiros nórdicos chegaram a virar mercenários a serviço dos exércitos dos Césares e também parecem ter feito parte dos grupos “bárbaros” que invadiram e retalharam o Império. Parte das riquezas saqueadas nesse processo foram parar em solo escandinavo.

Só que essa fonte secou rápido, e a Europa em frangalhos que emergiu da queda de Roma era não só bem mais pobre como muito menos conectada. A simplificação radical da economia e da sociedade só começou a ser revertida lentamente a partir do começo do século 8º, com a construção ou a ampliação de portos mercantes da França à Alemanha, englobando também a costa leste da Inglaterra. Em parte, esse processo foi estimulado pelo fortalecimento do reino cristão dos francos (englobando justamente a região dos novos portos), que alcançaria seu auge com a ascensão do imperador Carlos Magno (747-814).

Lojinha aberta

E dá pra enxergar um processo similar acontecendo no registro arqueológico da própria Escandinávia. Foi no começo do século 8º que ocorreu a fundação de uma vila mercantil dinamarquesa chamada Ribe (que existe até hoje). Usando métodos refinados de datação, cientistas europeus determinaram recentemente como Ribe foi aumentando sua esfera de trocas comerciais com o passar do tempo, seja com outras partes da Escandinávia, seja com as regiões mais ao sul, na esfera de influência dos francos.

“Vemos essa intensificação do comércio marítimo aparecer bem antes dos ataques vikings à Europa Ocidental”, conta Bente Philippsen, pesquisadora da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, autora de um estudo recente sobre o tema. Logo que o pessoal de Ribe abriu suas lojinhas, entre os principais artefatos que circulavam pela região estavam objetos de cerâmica vindos da bacia do rio Reno, que banha a França, a Alemanha e a Holanda de hoje.

Não era só pancada. Combinando diplomacia e comércio, os navegadores escandinavos ajudaram a criar a Rússia, a Inglaterra e a França. De quebra, conectaram o Ocidente com o mundo islâmico.

A aventura global dos vikings

publicado em superinteressante

Como a biodiversidade e escravidão no Brasil influenciaram o pensamento de Darwin

Por Maria Clara Rossini

Fernando de Noronha é um destino interessante para quem gosta de ciência. Não só pela natureza exuberante, mas também porque esse foi o primeiro pedaço de chão brasileiro que Charles Darwin conheceu. 

O criador da Teoria da Evolução passou só algumas horas no arquipélago, quando o navio HMS Beagle (o mesmo que o levou às Ilhas Galápagos) atracou em 20 de fevereiro de 1832.

Darwin tinha apenas 23 anos. Embarcou no HMS Beagle como “companheiro do capitão” (uma espécie de cargo na época). O tal capitão era um cientista, Robert Fitzroy, e aprovou o jovem naturalista para a vaga. Darwin aproveitaria a expedição para estudar a biologia e a geologia de terras pouco exploradas. A viagem durou cinco anos.

Noronha não impressionou o naturalista. Ele gostou mesmo quando o navio aportou em Salvador. Aí, sim, Darwin ficou sem palavras. Era a primeira vez que via uma de nossas matas por dentro. Ele comparou a garoa inglesa ao toró do Brasil: “Fui surpreendido por uma tempestade tropical. Procurei me abrigar debaixo de uma árvore, cuja copa cerrada seria impermeável à chuva comum da Inglaterra. Aqui, porém, após alguns minutos, uma pequena cachoeira descia pelo enorme tronco”.

Apesar da tromba d’água, ele não se abalou. Em seu diário de viagem, no dia 29 de fevereiro, escreveu que o dia havia transcorrido “deliciosamente”. Mais do que isso: “delícia é termo insuficiente para dar conta das emoções sentidas por um naturalista que, pela primeira vez, se viu a sós com a natureza no seio de uma floresta brasileira”.

O viajante passou o final de fevereiro e a primeira metade de março em Salvador. Sim: Darwin conheceu o Carnaval baiano. Mas, diferente de Feynman, odiou. Na segunda-feira de Carnaval, enquanto dava um rolê pela cidade, o naturalista foi atingido por bolas de cera cheias de água e ficou empapado com sacos de farinha jogados pelos foliões. “Difícil manter a nossa dignidade”.

Origem das espécies brasileiras

Salvador e Rio de Janeiro fizeram parte do itinerário do HM Beagle, navio que levou Darwin a conhecer o mundo. Entenda como as espécies brasileiras e o horror da escravidão o levaram à Teoria da Evolução

Como a biodiversidade e escravidão no Brasil influenciaram o pensamento de Darwin

publicado em superinteressante