Os jovens acordaram sobressaltados com o sonho que tiveram, mas para não parecerem imaturos ou supersticiosos , não comentaram nada sobre isso um com o outro. Reuniram suas coisas e saíram para o novo dia. O carro parecia estar menos enterrado que na noite anterior, Nando sugeriu que cavassem em torno dos pneus para aliviarem o atrito com a areia. Começaram então a cavar cada qual de um lado. Ofegante pelo esforço, Beto não percebeu que Nando estava muito quieto, só se deu conta quando viu as mãos desesperadas do rapaz tentando agarrar o para choque do carro… Nando estava submergindo na poça de areia…areia movediça…
Ele então levantou horrorizado e com toda sua força tentou arrancar o namorado da lama mortal, mas na ânsia de salvá-lo, desequilibrou- se e caiu, na mesma areia movediça, na mesma maré negra, que eles sonharam e não quiseram compartilhar…nos últimos segundos de vida ainda se tocaram, levemente nos dedos, com tanto amor como tinham minutos antes, onde ainda brilhavam o céu e o sol em seus olhos…em segundo plano, o carro afunda…
O faroleiro agora desce e vêm ao encontro do casal, que não tinha planos de morar no Farol da Enseada, mas que agora vai fazer daqui sua nova casa…lar é onde estamos com quem amamos, não é mesmo? A noite promete, chegaram novos hóspedes ao farol…
Beto para de olhos arregalados, puxando Nando pelo moletom.
Amor, não pode ser… não saímos da praia.
Talvez seja outro farol… só pode. Mas o carro continua ali, atolado ainda…e eles se olham estupefatos. Decidem então seguir para o lado oposto, talvez encontrem uma casa. Caminham uns quarenta minutos sem nada avistar, até que a luz da lanterna ilumina um carro, eles se apressam para falar com o motorista, mas chegando mais perto podem ver que é um jipe, atolado na areia…uns cem metros a frente ergue-se um farol… Beto cai de joelhos e começa a chorar…
Levanta amor, não, não faz assim…vai ficar tudo bem. Nando ajuda o namorado a levantar e dentro de si tenta achar uma explicação plausível para aquilo tudo, tenta, mas não há nenhuma. O vento e a chuva voltam a castigar, inclementes , e os rapazes resolvem passar a noite no farol, pelo menos estarão abrigados. Lá fora a tempestade avança, e dentro do edifício o clima é de tensão, preocupados em como irem embora na manhã seguinte, cada um vaga em pensamentos tentando achar uma solução, pelo menos a luz do dia ajudará a situarem -se melhor, tudo fica melhor quando amanhece.
Nando preparou uma fogueira, eles comeram e se recostaram nas mochilas, ouvindo o vento uivar na lagoa…o sono chegou para os dois, e no sonho de ambos, eles subiam as escadas em caracol, o faroleiro à frente, com um lampião de querosene, de uniforme antigo e com gestos autoritários, guiando os namorados através da escuridão, chegando ao topo, o homem mostra a eles o entorno do farol, apontando os pontos onde a areia é firme, e onde a maré negra devora tudo que a toca. Ele fala do respeito que devem ter a essa força da natureza, a areia movediça que só existe ali …o farol se alimenta da culpa e dos segredos, a areia suga pra si quem não acredita na força dela. Os rapazes se amam, é uma troca verdadeira, o farol respeita isto, mas a areia têm suas próprias leis e seu próprio julgamento …todo cuidado é pouco.
O dia transcorreu como o esperado, paisagens naturais, banhos de lagoa, picnic e muitos registros de tudo a volta deles. O pôr do sol de tirar o fôlego, depois as estrelas…tudo que eles haviam sonhado estava acontecendo. Na manhã seguinte, depois de muitos planos noturnos, cedo já estavam a caminho da praia de água doce novamente…desta vez iam conhecer um farol famoso na região, a expectativa era enorme. Passando no mercado abasteceram-se de sanduíches, frutas e água. O dia prometia, repleto de belezas silvestres, natureza e muita emoção. A cumplicidade dos dois era visível e contagiava ao redor. Há uns cem metros do farol, Nando sentiu o carro dar uma “ segurada” na areia, acelerou um pouco…e o carro morreu. Depois de várias tentativas em vão de fazê-lo pegar, eles descem do carro para ver o que aconteceu.
– Amor, você fez a revisão? Pergunta Beto, contrariado. -Sim, sim… Mas Nando estava achando estranho demais aquilo. O que aconteceu depois foi mais esquisito ainda…uma tempestade surgiu do nada, galhos voando, relâmpagos e trovões rasgando o céu da tarde, que antes tinha só uma nuvem aqui, outra ali…eles entraram novamente no carro, na esperança que funcionasse, mas ao invés disso o que viram foi o carro balançando e começando a afundar! Saíram rápido do veículo, com o coração aos saltos… então ambos olharam para o farol, tão imponente e robusto, parecendo um milagre no meio daquela tormenta. Pegaram o lanche no banco de trás e correram para lá, na pressa de se abrigarem da chuva e do vento. A porta estava aberta, há muito ninguém se importava em fechar… Eles entraram sacudindo as roupas e dando risada da situação. Que fazer agora ? Teriam de esperar o clima dar uma trégua… Beto confere o celular, zero sinal. Nando também não têm. Já está perto das dezoito horas e não tarda a anoitecer, eles resolvem conferir o carro, a tempestade deu uma amainada. O jipe continua lá, enterrado até a metade dos pneus na lama. Nando propõe dormirem ali, mas Beto prefere tentar voltar andando até conseguirem ajuda ou sinal de celular… Eles pegam as mochilas e a chave e começam a caminhada de volta, o ocaso e as sombras tornam o caminho igual e confuso, mas não ao ponto de meia hora depois eles se depararem novamente com o farol bem a frente deles…
a temperatura amena e a paisagem deslumbrante davam a este dia pinceladas de paraíso. Claro, claro, não poderiam faltar as fotos que recheavam as redes sociais do casal. Aparentemente era uma relação perfeita, mas olhando de perto ninguém é normal, e Lionel por vezes se tornava arrogante e controlador. Em dado momento Rita afasta-se um pouco mais para olhar o cânion, encantada com a paisagem que se abre a sua frente . Tudo é tão amplo, tão claro quanto o horizonte que a vida lhe proporciona neste momento. Havia garoado na noite anterior, e o chão estava escorregadio naquele local, Lionel mesmo vendo que a moça pisava em local arriscado não foi capaz de alertá-la…e em um milésimo de segundo , Rita se desequilibra , escorrega e fica a beira do precipício, mal conseguindo se segurar. Lionel se aproxima lentamente e demora demais para estender a mão…
Rita despenca de uma altura enorme e cai em um platô abaixo, totalmente alquebrada, mas viva, viva o bastante para pedir socorro a Lionel…que horrorizado ante a perspectiva da companheira ficar inválida ou coisa pior, simplesmente observa, enquanto ela agoniza. Mais tarde , ele aos prantos contará sua versão de que tentou, mas o celular não tinha sinal e que não havia jeito de salvá-la a tempo…
Olá querido, saudades?…diz Rita, com a mesma roupa que usava no dia do acidente, e toda deformada pela queda. Ele se encolhe, incrédulo de terror. Lá fora o vento uiva e a trovoada ressoa como que a comemorar mais uma vingança sendo feita no Farol da Enseada.
Amor, me perdoe, foi um acidente… você sabe, não fui eu…
Ah, com certeza querido, não foi você que me ajudou, você não ficaria com alguém que não pudesse se orgulhar nas fotos, não é mesmo?
Não, Rita, por favor… nãoooo! Lionel ainda têm tempo de olhar para baixo e ver o que o espera, uma singela queda de vinte metros de escada, bem menos do que a dor do desprezo que ela teve de suportar…
Em instantes ele está de pé, ao lado dele Rita, Mirtes, Matias, e tantos outros culpados ou vingativos que julgaram que seus segredos estavam muito bem guardados, e só não esperavam encontrar em seu caminho o Farol da Enseada… lá onde tudo vêm a tona ao sabor das marés da lagoa…ainda posso vê-los , estão entrando na água agora, a lua cheia encanta a todos, até os fantasmas…e a cada tempestade eles voltam…pode apostar!
Lionel chegou ao topo do farol e uma sensação estranha o acompanhava, estava sendo observado, ele tinha certeza. Parecia loucura já que obviamente ninguém morava ali, e nenhum carro havia chegado, ele ouviria o barulho. A vista lá do alto, apesar da escuridão da noite era realmente bonita, com uma visão panorâmica magnífica. Ele tira fotos, talvez não fiquem exatamente perfeitas, mas o que não é registrado parece que não aconteceu… não é mesmo? Ele sabe bem disso, porque de tantas viagens, aventuras e passeios, raramente deixa de compartilhar com todos tudo que faz. A sensação de presença alheia permanece e começa a incomodá-lo, ele percebe que já está atrasado para seu compromisso. Começa a descer a escada…
De repente o chão some dos seus pés e ele se vê lançado no vácuo. Lentamente sua mente volta a ativa, talvez melhor não… Rita está parada a sua frente, com o mais cínico sorriso… mas não pode ser, ela não faz mais parte deste mundo, isto ficou para trás, enterrado para sempre…
Lionel e Rita se conheceram jovens e logo se envolveram, uma paixão avassaladora como tantas outras , muita festa, viagens, o gosto de ambos por aventura e trilhas tornou-os inseparáveis, tudo era motivo para comemorar mais um dia juntos. Mal podiam esperar a próxima viagem, e desta vez planejaram uma semana pelos cânions, seria muito especial para ambos. A pergunta que se faziam sempre em tom de manha : você me ama? Era respondida pelo outro com um “ás vezes” só pra provocar…e isso causava risadas aos dois. Tudo pronto para o feriado, lançaram-se a estrada como de costume… pé na estrada. O primeiro dia nos cânions foi grandioso, literal e figuradamente. Aquela amplitude e imensidão deixaram a ambos extasiados, e a noite repleta de estrelas foi um espetáculo único e inimaginável. O segundo dia prometia e já começou bem com um café da manhã maravilhoso na pousada, expectativa e risadas. Logo estavam no próximo penhasco, e põe ser meio de semana não havia mais turistas ali…
Da janela da casinha, casinha de tijolos,cimento, histórias e calos…dessa janela assisto o vento bater nas árvores. É uma batida contínua, sincrônica até, diria eu, amorosa. Vai e volta com um cinismo e um charme que só poderia esperar do vento. Esse mesmo,que vêm de não sei onde, remexe tudo depois parte. Assim, sem deixar endereço, sentimento ou telefone. Elas, as árvores, já deveriam estar acostumadas, em especial aqui, onde esse intrépido cavaleiro surge dia sim , outro talvez. Mas não, cada nova visita têm ares de estréia. A paixão e o fascínio só aumentam, pois que a cada rompante ele chega diferente, soando como se mil harpas e liras tocassem juntas em torno e dentro da minha alma. Sim, sou um pouco ,ou muito, como essas árvores. Provo dessa dúbia relação com o vento, mas entre mortos e feridos salva-se a delícia de ter os cabelos embaraçados e os arrepios nos braços. Assim como as árvores, com seus galhos revoltos e as folhas ao léo. Agora chega de adular o vento,mesmo ele sendo meu predileto, a vida e a paisagem aqui não me deixam dúvidas de que natureza é sábia e de que a vida no campo é uma das maravilhas da existência. Dá para ver muito mais aqui desta janela,podem acreditar…muito além das vacas pastando, ou dos pássaros que a todo momento cantam e piam como se não houvesse amanhã. Toda essa movimentação me motiva, esse verde trás a tona tudo que pudesse estar adormecido, e mesmo quando bate a preguiça, fruto do friozinho e da garoa, é esta janela tão frugal que dá o tom do dia. Quem dera a alma possa ter uma abertura como essa, já que seria de tanta valia, saber olhar e recolher cada momento como as árvores recolhem o vento, como se acolhe alguém ou algo que nem se sabe, mas se anseia. Acontece que nada vêm de graça ou sozinho, e esse vento matreiro não seria excessão. A partir de agora ele divide espaço com o sol, e essa mistura deliciosa faz qualquer um sair da toca e querer provar esse momento pitoresco. Sabe do que me dei conta agora? Desde que estou aqui ainda não vi nem um sapo …nem um, nem pra remédio, como diria minha vó. Já vi cobras e lagartos, sem trocadilho, mas sapo… estão é passando ao longe…