Vírus Epstein-Barr pode estar por trás da esclerose múltipla

Por Thais Manarini

Depois de anos de investigação, um estudo vem apontar o dedo para a íntima relação entre o vírus Epstein-Barr e a esclerose múltipla, doença neurodegenerativa capaz de gerar fadiga crônica e prejuízos à visão e à locomoção. A análise envolveu dados de 10 milhões de militares americanos em um período de 20 anos. Conclusão: depois do contato com o patógeno, explodia o risco de ser diagnosticado com a condição. “A teoria é que a ação do vírus em nosso genoma interfira no sistema imune, favorecendo a agressão do próprio corpo ao cérebro”, explica o neurologista Mateus Boaventura, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. A expectativa é que, no futuro, vacinas possam deter o agente e reduzir o risco da esclerose múltipla. [abril-whatsapp][/abril-whatsapp]

O Epstein-Barr

Vírus é extremamente comum:

  • O que ele causa? Provoca a doença do beijo, ou mononucleose, que atinge mais jovens e dá dor de garganta, inchaço nos gânglios, tosse e perda de apetite.
  • Como é transmitido? Pela saliva, e é bem difícil não pegar. Estima-se que 95% das pessoas tenham tido contato com ele alguma vez na vida.
  • Sempre dá sintomas? Não, mas o novo estudo revela que o risco de esclerose múltipla (EM)é maior entre quem chegou a desenvolver manifestações da infecção.
  • Ele provoca EM? Aqui cabe uma ponderação: a doença é multifatorial. O vírus atuaria como um gatilho em pessoas geneticamente suscetíveis a ela.

Presença de patógeno está ligada a aumento de 32 vezes no risco da doença

Vírus Epstein-Barr pode estar por trás da esclerose múltipla

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Mudança em lei pode aumentar quantidade de agrotóxicos que chegam à mesa

Por Fabiana Schiavon

Foi aprovado pela Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 6 299/2002, que propõe uma nova regulamentação à produção e venda de agrotóxicos. O texto, que agora segue em tramitação no Senado, preocupa especialistas em saúde e alimentação porque pode flexibilizar ainda mais o registro de novos defensivos agrícolas no país. Desde 2008, o Brasil é o país que mais consome produtos com agrotóxicos, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca). Por aqui, há permissão para uso de substâncias já banidas em outros países. Para complicar, ocorre venda ilegal de compostos proibidos. Não à toa, os traços desses produtos chegaram até aos alimentos ultraprocessados — biscoitos, salgadinhos, bebidas e companhia. Em excesso (e com pouca fiscalização) os agrotóxicos podem fazer mal à saúde tanto de quem os consome quanto de quem os manipula. Segundo o Inca, o consumo frequente de água e alimentos contaminados pelos defensivos agrícolas pode favorecer o desenvolvimento de diversos tipos de câncer. Quem trabalha diretamente com esses compostos está sob maior risco. Nos últimos três anos, a situação piorou. Utilizando brechas na lei, foram aprovados cerca de 1.500 novos produtos. “Hoje libera-se mais de um agrotóxico por dia. Por que é preciso ter mais celeridade? Esta é a primeira questão a ser levantada sobre esse projeto”, questiona José Pedro Santiago, engenheiro agrônomo e conselheiro do Instituto Brasil Orgânico. A fiscalização também foi abandonada. Há dois anos, deixou de ser publicado o relatório do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para), criado em 2001 com o objetivo de avaliar continuamente os níveis de resíduos químicos nos vegetais que chegam à mesa do consumidor. O último documento foi divulgado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2020. Na época, entraram na análise 4 616 amostras de 14 alimentos. Desse total, 23% foram consideradas insatisfatórias, pois ultrapassavam o limite máximo permitido de resíduos.

Principais polêmicas do projeto

. Agrotóxicos passam a ser chamados de pesticidas O termo agrotóxico foi citado pelo engenheiro agrônomo Adilson Paschoal no livro “Pragas, agrotóxicos e a crise ambiente – problemas e soluções”, de 1979 e é usado pela Constituição Federal para categorizar esses produtos. “Fazer a mudança não é apenas um eufemismo, é um equívoco. O uso do termo chama a atenção para o que é real. Os pesticidas, como diz o nome, matam pestes. Os agrotóxicos até podem eliminar as pragas, mas também intoxicam os seres humanos”, explica Rafael Arantes, nutricionista do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). A troca de nomes tira a carga de alerta que é importante para toda a cadeia que utiliza ou tem contato com esses produtos químicos, avaliam especialistas. + Leia também: Alimentos orgânicos contra o câncer: vale a pena investir?2. Aprovação unilateral Atualmente, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) dá o aval sobre a eficácia do defensivo. No entanto, dado o grau de complexidade da categoria, sempre fizeram parte da análise o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que mede os impactos ambientais, e o Ministério da Saúde, que controla a quantidade de resíduos tóxicos que vão parar na mesa (e na torneira) da população. Se as mudanças na lei forem sancionadas, o MAPA poderá liberar um produto no mercado sem o consentimento das outras áreas. Para renovação de uso, ainda, o Ibama e o Ministério da Saúde seriam apenas “consultados”. 3. Sem cancelamento de registros O monitoramento das consequências do uso desses produtos químicos é sempre avaliada por organizações competentes. Por isso, há hoje a possibilidade de se pedir o banimento de agrotóxicos considerados perigosos — mesmo com um certo grau de dificuldade. A legislação atual permite que entidades representantes de trabalhadores, partidos políticos e outras associações regionais façam esses questionamentos. Com a nova lei, os pedidos ficarão nas mãos de organizações internacionais. 4. Registros temporários O que pode parecer pontual, na verdade, abre brecha para que esses compostos circulem por meses sem antes passarem por uma análise técnica aprofundada. “Esse trecho da lei que dá celeridade aos registros pode criar uma linha de produção de autorizações temporárias. O texto permite, por exemplo, que os fabricantes usem compostos similares já aprovados para dizer que seu novo produto cumpre as exigências”, avalia Arantes. Ou seja, há a possibilidade de incluir substâncias que ainda não foram estudadas com rigor pelas autoridades. Outro trecho do texto permite ainda que a autorização seja postergada por dois meses. Assim, o temporário pode virar permanente. “Nesse meio tempo, esses produtos já afetaram nossos rios, campos, o estrago já estará feito”, conclui Santiago. 5. Livre exportação Pela nova lei, se um agrotóxico for produzido só para exportação — sem a intenção de venda no Brasil — ele não precisa ser registrado por aqui. [abril-whatsapp][/abril-whatsapp] Além de o defensivo ser um risco para o meio ambiente de outro país, há a questão de que trabalhadores brasileiros farão parte da cadeia de produção e terão contato direto com essas substâncias. 6. Novas misturas vão entrar no mercado Hoje, para comprar um agrotóxico, é preciso ter uma receita agronômica (documento com a prescrição de uso dos defensivos agrícolas). A nova lei tem um item que pode driblar a obrigatoriedade. “O texto mantém a necessidade da recomendação do agrônomo, mas exclui ‘casos excepcionais’ da obrigação, o que abre brecha para muita coisa. Quais seriam esses casos?”, questiona Santiago. 7. Propaganda livre Como nos anúncios de cigarros e bebidas alcoólicas, as propagandas que divulgam agrotóxicos devem vir com avisos sobre seus componentes e riscos à saúde. Elas também são permitidas apenas em veículos de comunicação dirigidos a profissionais da área. A ideia do PL é retirar a maior parte dessas restrições.

Qual a solução?

Abolir os agrotóxicos não é uma opção viável. “Se alguém proibir agroquímicos, a produção para. É como dizer que a partir de amanhã só poderão circular carros elétricos, sem a estrutura necessária para isso”, explica Santiago. O caminho, então, seria investir na fiscalização, na regulação e em novos modelos de cultivo que reduzam a necessidade desses produtos. “Há exemplos, inclusive de produção animal e vegetal em grande escala, que não dependem de agrotóxico, nem de adubo químico, como a permacultura e o sistema agroflorestal”, esclarece o engenheiro. Na contramão da lei em questão, está parado no Congresso o PL 6670/2016 que institui a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNARA). “Os dois estavam em debate, até que este foi abandonado, e o PL conhecido como ‘do veneno’ passou a ser prioridade”, relata Arantes, citando o apelido dado por críticos ao projeto. A proposta de retomar esse outro texto faz parte do “Dossiê Contra o Pacote do Veneno e em Defesa da Vida”, organizado pela Agroecologia e Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida (Abrasco), com apoio da Fiocruz. O documento possui 25 notas técnicas de instituições que reprovam os termos da nova lei.

O que o consumidor pode fazer?

Posicionar-se sobre o tema diretamente aos políticos do Congresso e pelas redes sociais é um caminho de mobilização. No dia a dia, o consumidor pode buscar os alimentos orgânicos, que são produzidos sem defensivos ou fertilizantes sintéticos. Para ajudar, o Idec produziu um mapa de feiras orgânicas brasileiras. Segundo Santiago, esse tipo de produtor só cresce no Brasil e se multiplica a cada ano. “Há mais de 25 mil produtores orgânicos registrados no Ministério da Cultura”, aponta o engenheiro. 

O texto, ainda em discussão, quer flexibilizar ainda mais a aprovação de novos produtos e levantou o alerta de especialistas em saúde e alimentação

Mudança em lei pode aumentar quantidade de agrotóxicos que chegam à mesa

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Guia orienta sobre cuidados com o glaucoma durante a pandemia

Por Thais Manarini

A pandemia do coronavírus piorou o diagnóstico, tratamento e controle de muitas doenças, gerando apreensão em médicos de diversas especialidades. Oftalmologistas, por exemplo, estão especialmente preocupados com o avanço do glaucoma, que é a principal causa de cegueira evitável em todo o mundo. Devido à baixa adesão a exames oculares e check-ups, especialistas de 90 países ligados à World Glaucoma Association (WGA) elaboraram um guia completo com orientações aos pacientes com essa doença. Se o glaucoma estava bem controlado na última consulta, a WGA avisa que o adiamento do check-up por alguns meses provavelmente não afetará a visão. De qualquer maneira, ressalta que é preciso continuar com o uso de todos os colírios recomendados pelo médico. Agora, caso o indivíduo já tenha sido operado de glaucoma e note sintomas como perda de visão, dor ocular ou secreção, aí a visita ao oftalmo precisa acontecer o mais rapidamente possível. “ Check-ups regulares e comparações contínuas dos resultados dos exames ajudarão a determinar se o seu glaucoma está bem controlado ou se um tratamento adicional é necessário”, esclarece a WGA. A entidade alerta ainda que há casos em que lasers e colírios não são suficientes para controlar a doença – aí é recomendado não ficar adiando a cirurgia. Para baixar o material completo, clique aqui. [

Documento foi elaborado por oftalmologistas de 90 países

Guia orienta sobre cuidados com o glaucoma durante a pandemia

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Março borgonha: fique atento aos sinais do mieloma múltiplo

Por Fabiana Schiavon

Março borgonha é o mês de conscientização para o mieloma múltiplo, um tipo de câncer hematológico (do sangue), do qual também fazem parte leucemia e linfoma. Entre os três, ele é o segundo com mais ocorrências no mundo, mas ainda é uma doença rara. Portanto, seus sintomas podem ser confundidos com outros males, mais comuns. “É preciso que o conhecimento da doença chegue a outras especialidades, como os ortopedistas, nefrologistas. Pela falta dele, o indivíduo acaba levando muito tempo para chegar ao hematologista ou oncologista que dará início o tratamento”, defende o médico Angelo Maiolino, professor de hematologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Uerj) e vice-presidente da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH). Uma pesquisa feita pela farmacêutica Sanofi ouviu 1 500 pessoas em todo o país no fim de 2021 e constatou que 10% da população conhece alguém que teve mieloma múltiplo. Entre suas vítimas recentes, estão o cineasta e jornalista Arnaldo Jabor e a jornalista Cristina Lôbo.

O que é mieloma múltiplo

A doença acomete regiões do corpo onde a medula óssea, estrutura que fica dentro de alguns ossos, é ativa. A medula óssea é o local onde se fabrica nossas células sanguíneas. Entre elas, estão os glóbulos brancos, que fazem parte do nosso sistema imunológico. O mieloma ataca diretamente os plasmócitos, um tipo de glóbulo branco. No lugar da célula saudável, surgem células malignas que se proliferam e passam a produzir anticorpos anormais, conhecidos como proteína M. “A doença faz a medula produzir um anticorpo sem função, que vai prejudicar o organismo do indivíduo, deixando-o mais suscetível a doenças”, explica Maiolino. [abril-whatsapp][/abril-whatsapp] Com o câncer já manifestado, 70% das pessoas podem ter uma lesão óssea, e ainda  dores, fraturas, anemia. Cerca de 30% dos diagnosticados sofrem de insuficiência renal. O mieloma é chamado de múltiplo porque provoca lesões em diversas partes. Entre os locais mais comuns, os ossos da coluna vertebral, crânio, pélvis, caixa torácica e áreas ao redor dos ombros e quadris. Pode ocorrer dele atingir apenas um ponto: os médicos chamam tecnicamente de plasmocitoma ósseo solitário.

Incidência

O mieloma múltiplo é considerado um tipo raro de câncer no sangue. Ele acomete, aproximadamente, 750 mil pessoas ao redor do mundo. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima que há cerca de 4.560 casos anuais, com uma taxa de incidência de 2,1 casos por 100 000 habitantes na população geral. Cerca de 60% dos óbitos ocorrem em pessoas entre 60 e 79 anos. Há dados crescentes sobre a ocorrência em jovens e crianças. Para hematologistas, no entanto, os números na faixa etária podem ter aumentado porque as equipes de saúde estão mais alerta aos sinais. “O risco não aumentou, mas médicos que detectam insuficiência renal em uma pessoa jovem agora suspeitam do mieloma e pedem os exames”, exemplifica Maiolino.

Diagnóstico

Não existe uma política de rastreamento do mieloma, como a mamografia para o câncer de mama. A investigação começa em geral a partir dos sintomas ou de alterações sanguíneas. As primeiras suspeitas podem vir de um hemograma, e há um exame de sangue simples que já aponta alterações, a eletroforese de proteínas séricas. Também estão no rol diferentes tipos de exame de urina, a biópsia da medula-óssea (feita com anestesia local), radiografia óssea, tomografia computadorizada ou ressonância magnética.

Fatores de riscos

O problema não está relacionado diretamente com uma condição de saúde ou hábitos de estilo de vida. “Não dá para associar diretamente como fazemos com o cigarro e o câncer de pulmão”, afirma Salvino. Entretanto, a  obesidade é um fator risco citado por alguns especialistas, o que pode ter a ver com o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados.

Hematologistas pedem que outras especialidades aprendam a suspeitar deste tipo de câncer, e associações lutam para que tratamento chegue à rede pública…

continua abaixo:

Março borgonha: fique atento aos sinais do mieloma múltiplo

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Zoom: no balanço das ondas

Por Diogo Sponchiato

Zoom: no balanço das ondas

Se tem um aparato útil para navegarmos por aí — sobre as águas e em terra firme —, ele fica no interior do ouvido. É o labirinto, uma estrutura diminuta cujas células ciliadas ajudam a captar o posicionamento e o movimento do nosso corpo em relação ao ambiente, transmitindo as coordenadas ao cérebro. Havendo boi nessa linha, podemos perder a rota e entrar em vertigem. 0,5 centímetro de diâmetro: é a dimensão do vestíbulo, um dos componentes do sistema que permite ao labirinto nos servir de GPS. 30% da população sofre de tonturas, segundo estimativa da OMS. Uma das causas são problemas no labirinto. 

Foto tirada com o microscópio mostra estrutura responsável pelo nosso equilíbrio

Zoom: no balanço das ondas

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Novo tipo de HIV é detectado

Por Thais Manarini

Missão bem-sucedida

O tripé de enfrentamento ao HIV:

Cientistas identificaram um subtipo inédito do vírus HIV em 109 pessoas na Holanda. Baseados em testes preliminares, eles declararam que a versão parece ser mais virulenta que as cepas predominantes. “Isso significa que o indivíduo contaminado adoeceria em menos tempo, porque o vírus seria mais eficaz em se espalhar e matar as células de defesa, que são o alvo”, explica Aguinaldo Roberto Pinto, microbiologista que estuda o HIV na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mais de dez subtipos virais já foram catalogados, e sua distribuição varia geograficamente. Felizmente, todos eles são controlados com sucesso por meio dos medicamentos disponíveis — incluindo a nova versão europeia. “O que essa descoberta reforça é a necessidade de diagnosticar e tratar logo os pacientes”, afirma Pinto.

Missão bem-sucedida

O tripé de enfrentamento ao HIV:

  1. Prevenção Além do preservativo, nos últimos anos chegou a profilaxia pré-exposição (PrEP), combinação de drogas antivirais que ajuda a evitar a infecção. vale lembrar que o uso da PrEP subiu 182% no mundo em 2020, mas ainda está aquém do esperado, em especial nos países mais pobres.
  2. Testagem Infelizmente, muita gente ainda sofre com estigmas que atrapalham o diagnóstico precoce. Quanto antes ele for feito, melhor.
  3. Tratamento Os medicamentos atuais conseguem não só impedir o desenvolvimento da aids como reduzir a carga viral e bloquear a transmissão.

Vírus seria mais agressivo, mas responde a remédios

Novo tipo de HIV é detectado

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Quem são os indivíduos imunocomprometidos? Só Covid preocupa?

Por Fabiana Schiavon

Com a pandemia, passamos a falar muito sobre os imunocomprometidos, indivíduos cujo sistema imune não funciona como deveria. Eles são considerados grupos de risco porque têm maior probabilidade de desenvolver formas graves da Covid-19 e, portanto, são prioridade na vacinação. Para ter ideia, é para esse pessoal que se indica, hoje, a quarta dose do imunizante, além dos idosos. Em linhas gerais, o público é dividido em dois principais grupos. Um deles é formado por quem nasce com um problema genético que afeta o sistema imunológico A condição pode se manifestar ainda na infância ou ser descoberta já na fase adulta. “São mais de 400 doenças desse tipo. Podemos citar a mais comum e benigna delas, a deficiência seletiva de imunoglobulina, e a mais preocupante, a imunodeficiência combinada grave, em que dificilmente a criança sobrevive até o primeiro ano de vida”, ensina Ekaterini Simões Goudouris, médica alergista, coordenadora do Departamento Científico de Imunodeficiência da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai). O outro grupo inclui quem acaba desenvolvendo doenças graves ou crônicas, que abalam o sistema de defesa. “Um alcoólatra ou uma pessoa com diabetes entram nessa lista, porque seu organismo é mais frágil. Portanto, eles têm maior probabilidade de enfrentar infecções graves, que ainda podem deixar sequelas”, explica Ekaterini. [abril-whatsapp][/abril-whatsapp] Portadores de HIV também se encaixam aqui, porque o vírus se instala nas células de defesa do corpo e, se não controlado com medicamentos, compromete a imunidade. Nessa turma entram ainda aqueles que tomam medicamentos que afetam o sistema de defesas. É o caso dos portadores de doenças autoimunes, como o lúpus. “Esse males ocorrem quando o próprio sistema imunológico se volta contra o organismo. Então o tratamento é feito com medicamentos que suprimem o processo de defesas”, explica a alergista. Pacientes com câncer são outro exemplo, já que os tratamentos utilizados para combater o tumor costumam debilitar a imunidade. Os transplantados, por sua vez, precisam tomar medicamentos imunossupressores pelo resto de suas vidas.

Esse grupo é muito mencionado quando se fala em prioridade na vacinação contra o coronavírus. Entenda se a quarta dose vale para todos que fazem parte dele…

Quem são os indivíduos imunocomprometidos? Só Covid preocupa?

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Pitaia rende corante natural e sustentável

Por Thais Manarini

Difícil olhar para a pitaia e não se encantar com sua cor. Em seguida, é o sabor que faz sucesso. Que o diga o químico Guilherme Julião Zocolo, pesquisador da Embrapa Agroindústria Tropical. Ele percebeu que esses atributos serviriam muito bem à produção de um corante natural. E dito e feito! Após levar a fruta ao laboratório, Zocolo chegou a belas tonalidades de vermelho, violeta e rosa — e sem recorrer a misturas. “Um ponto positivo é que o processo de obtenção é totalmente à base de água. Ou seja, não usamos nada derivado do petróleo”, conta. Cabe notar que o corante vermelho natural mais usado pela indústria atualmente, o carmim de cochonilha, é rejeitado pelo gigante mercado de produtos veganos, já que é feito a partir de um inseto. O de pitaia cairia como uma luva nesse e em outros casos. A Embrapa aguarda parcerias com empresas para seguir com a inovação.

E com a beterraba?

Está aí um alimento que gera um corante natural vermelho bastante usado pela indústria. Mas algumas questões fazem com que a pitaia tenha vantagens nessse duelo. “A beterraba apresenta um gosto um pouco ferroso”, informa Zocolo. Para neutralizar eventuais problemas de sabor e aroma em seu corante, alguns processos químicos extras se fazem necessários. Com a pitaia, por outro lado, isso não precisa acontecer.

Benefícios por fora e por dentro

A pitaia merece espaço no dia a dia pelos seus atributos

  • Antioxidantes São capazes de proteger nossas células de danos provocados pelos radicais livres. Dessa maneira, auxiliam na prevenção de um punhado de doenças.
  • Pouca caloria A fruta concentra bastante água, contribuindo com a hidratação. Além disso, é pobre em açúcar. Uma opção leve e refrescante, portanto.
  • Vitamina C Ela participa da absorção do ferro e é aliada do nosso sistema imunológico. Também cumpre papel como antioxidante, blindando o organismo.
  • Fibras Essas substâncias fazem sucesso sobretudo pela força que dão ao funcionamento do intestino. Ainda facilitam o controle do colesterol e da glicose no sangue.

Dependendo da concentração, dá para obter tons que vão do rosa ao vermelho vivo

Pitaia rende corante natural e sustentável

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Maré alta para os frutos do mar

Por Diogo Sponchiato

O mar não só está para peixes como também para lulas, camarões, caranguejos e mexilhões. Esses moluscos e crustáceos vêm superando aquela pecha de comida inacessível ou restrita ao litoral e ganhando as mesas pelo mundo todo. Há um menu de motivos para isso. A começar pelo apelo como ingrediente, algo que pode ser explorado em qualquer cozinha — na sua casa, no quiosque da praia ou no restaurante mais sofisticado. Depois, os frutos do mar ostentam um belo valor nutricional: são fontes de proteínas, vitaminas e minerais. E, nas últimas décadas, cresceu a oferta (e também a demanda) pelo planeta. Segundo o relatório Estado Mundial da Pesca e Aquicultura de 2020, da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), a produção global de alimentos provenientes da aquicultura — que consiste na criação de peixes e frutos do mar em cativeiro — aumentou 527% em quase 30 anos. Sem dúvida, isso impulsionou o consumo, que se elevou 122% nesse mesmo período. Hoje, ainda de acordo com a FAO, a ingestão per capita mundial é de 20,5 quilos por ano. Embora a costa brasileira tenha cerca de 11 mil quilômetros de extensão, o consumo do que vem da água no país é a metade da média global. São 10 quilos por ano, pelas contas do Our World in Data.

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Porém, tudo indica que a pandemia tenha aquecido o setor. Os produtores relatam um aumento sensível na procura, sobretudo por parte do varejo. “Com os restaurantes fechados ou com restrições, as pessoas têm buscado preparar refeições mais gourmetizadas em casa. É nesse contexto que se encaixam os peixes e frutos do mar”, observa Roberto Imai, presidente do Sindicato das Indústrias de Pesca no Estado de São Paulo. Para atender esse público, as empresas do ramo apostaram ainda mais nas versões congeladas e tiveram que buscar novos canais de venda, como o e-commerce. “Muitas passaram a investir em porções menores, quase prontas para o preparo, além de embalagens mais atraentes para o público final”, conta Imai.

Nas ondas dos nutrientes

De maneira geral, a composição nutricional dos frutos do mar guarda semelhanças. “Além de serem boas fontes de proteína, são ricos em ferro, o que contribui para prevenir problemas como anemia, e em zinco, mineral que auxilia na manutenção dos hormônios e na regulação metabólica”, destaca a nutricionista Anita Sachs, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Também têm maior teor de ômega-3 em relação a outros alimentos de origem animal”, completa. 

Boas fontes de nutrientes e donos de um sabor único, eles se popularizam esbanjando versatilidade na cozinha. Mas a cadeia produtiva é alvo de debates.

Maré alta para os frutos do mar

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Violência contra a mulher: sofrimento silencioso

Por Fabiana Schiavon

Um show de horrores.” É assim que a influenciadora digital Shantal Verdelho, de 33 anos, descreve, em entrevista à TV, o vídeo do parto de sua filha, realizado em setembro de 2021 em um hospital particular paulistano. Ela acusa o médico Renato Kalil de violência obstétrica. Durante o trabalho de parto, que durou ao redor de 48 horas, o profissional proferiu ofensas como “Faz força, porra!” e submeteu a paciente à manobra de Kristeller — técnica cada vez mais contraindicada que consiste em pressionar a barriga da parturiente para expulsar o bebê. A certa altura, insistiu para Shantal fazer uma episiotomia (corte no períneo a fim de facilitar a passagem da criança), mas ela se recusou. “Xingamentos e humilhações são apenas a ponta do iceberg”, afirma a ginecologista e obstetra Melania Amorim, professora da Universidade Federal de Campina Grande, na Paraíba. “É preciso dar nome ao problema para poder enfrentá-lo. Parte da categoria não concorda com o termo, mas somos nós que temos o direito de definir como vamos chamar os maus-tratos de que somos vítimas. É e sempre foi violência obstétrica”, diz. Melania esclarece que a expressão se refere a qualquer ação praticada por profissionais de saúde sem consentimento e entendimento da gestante ou parturiente. [abril-whatsapp][/abril-whatsapp] No Brasil, uma em cada quatro mulheres é vítima de abusos em alguma fase da gravidez, do pré-natal ao pós-parto (e até em casos de abortamento), segundo estudo da Fundação Perseu Abramo de 2010 contemplando a assistência pública e privada. A violência obstétrica inclui a adoção de procedimentos considerados desnecessários e sem evidência científica, como a episiotomia, ou sem indicação médica para a paciente, caso da cesárea. Um levantamento da OMS aponta que o Brasil é o segundo país em número de cesarianas. Em 2018, 55,7% do total de nascimentos ocorreu pela via cirúrgica — só ficamos atrás da República Dominicana. A recomendação da própria OMS é que essa taxa não exceda os 15% do total de partos. Enquanto no setor público a proporção é de 46%, no privado chega a 88%. De acordo com a biomédica Tatiana Henriques, doutora em saúde pública pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), o perfil mais exposto à violência obstétrica engloba mulheres negras, de baixa escolaridade e mães de primeira viagem. “Ter acesso a informação de qualidade e estar com acompanhante, direito previsto em lei, são fatores de proteção”, sinaliza. Perceba: a cesariana em si não é o problema; o problema é a realização sem critério, e tantas vezes sem conhecimento ou anuência da gestante. Para evitar práticas abusivas assim, a advogada Ruth Rodrigues, presidente do coletivo Nascer Direito, orienta as mulheres a elaborarem um plano de parto. 

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 “Costumo dizer que a gestação é uma faculdade e o plano de parto é o trabalho de conclusão do curso, o TCC.  Se a mulher não quer ser chamada de ‘mãezinha’ ou sofrer episiotomia, por exemplo, deve deixar isso claro e dizer que não aceita”, explica. “Toda decisão deve ser tomada em conjunto com a equipe, e não é isso o que nós vemos. A única ocasião em que o médico pode e deve tomar uma decisão sem consultar a paciente é em caso de emergência”, completa. A violência obstétrica ocorre tanto em hospitais públicos quanto particulares. A pesquisa Nascer no Brasil, da Fiocruz, concluiu que 45% das pacientes do SUS e 30% das atendidas na rede privada sofreram alguma injúria do gênero num universo de 23,8 mil mulheres que deram à luz em 191 municípios. “Parto não é um ato médico. Nem aquele desespero retratado nos filmes, como se a mulher fosse uma bomba-relógio. É algo natural e fisiológico. Queremos resgatar a autonomia da mulher e evitar que um momento de alegria vire sofrimento”, defende Ruth. A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) diz, em nota, promover cursos e protocolos para aprimorar os profissionais da área, mas não endossa o termo “violência obstétrica”, que instituiria a visão do médico como um “ser violento”. “Caso a gestante ou parturiente perceba que está recebendo um tratamento inadequado ou que está sendo desrespeitada, deve registrar o ocorrido junto ao Conselho Regional de Medicina do estado onde foi atendida”, orienta a entidade. Investigado pelo Cremesp e a polícia, Renato Kalil nega as acusações.

  • 25% das mulheres brasileiras já sofreram algum tipo de violência obstétrica (do pré-natal ao pós-parto)
  • 55% dos partos no país são cesáreas, boa parte delas sem indicação formal. A OMS orienta no máximo 15% de cesarianas

Em 1993, quando procurou a clínica do maior especialista em reprodução assistida do Brasil para engravidar, a empresária Vanuzia Lopes Gonçalves não podia imaginar que, em vez de realizar um sonho, viveria um pesadelo. Na terceira e última tentativa de inseminação, tomou o remédio dissolvido em um copo plástico e adormeceu. Quando o efeito do sedativo passou, deparou com uma cena grotesca: estava sendo molestada pelo médico. Médico ou monstro? Da clínica correu para a delegacia. Vanuzia foi a primeira das dezenas de vítimas do ex-médico Roger Abdelmassih a denunciá-lo por estupro. “Não existe médico abusador. O que existe é abusador que vira médico e ataca as pacientes”, afirma a empresária, hoje com 61 anos. Em 2011, ela fundou o grupo Vítimas Unidas e, em 2015, lançou o livro “Bem-Vindo ao Inferno”, da Matrix Editora (clique aqui para comprar). “Toda vez que conto essa história, revivo aquela violência. Não existe cura para o estupro”, desabafa. Encarcerado em 2014, Roger Abdelmassih foi condenado a 278 anos de prisão pelos crimes envolvendo 56 pacientes. Ofensas e abusos não são, evidentemente, um mal circunscrito a consultórios médicos. Mas não dá para menosprezar o que acontece ali. Uma pesquisa online feita pelo portal Catraca Livre com 700 mulheres constatou que 53% delas já sofreram assédio moral ou sexual em consultas com ginecologistas. 

Episódios recentes colocam um facho de luz na violência obstétrica. Entenda o que denuncia esse e outros tipos de abuso contra a mulher

Violência contra a mulher: sofrimento silencioso

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