Como a China usa as redes sociais para manipular o debate público

Por Rafael Battaglia

É a maior população virtual do mundo: um bilhão de usuários, já que 71% dos chineses têm acesso à internet. Mas, para a maioria deles, a experiência de estar conectado é radicalmente diferente da sua. Pense em qualquer aplicativo – ele provavelmente está bloqueado lá. Cortesia de um sofisticado sistema de bloqueio, responsável pelo maior programa de censura do planeta, conhecido como Grande Firewall da China.

O governo chinês atua para que a internet não seja uma plataforma para a propagação de discursos políticos opositores. De quebra, a ausência desses aplicativos estrangeiros também incentiva o desenvolvimento e a adoção de alternativas nacionais, mais próximas do controle estatal. Um jogo ganha-ganha para Pequim.

É dessa forma que a internet chinesa se tornou a mais controlada do mundo. Em 2018, apenas o Baidu, o maior motor de buscas do país, relatou a exclusão do seu mecanismo de pesquisa de mais de 50 bilhões de itens de informações consideradas prejudiciais.

Ao todo, são mais de 300 mil domínios bloqueados aos chineses. Não há acesso ao Google, ao WhatsApp, à Netflix, nem ao Telegram. Páginas da Wikipédia, em todas as línguas, estão inacessíveis. Veículos de imprensa tradicionais e organizações de direitos humanos seguem o mesmo caminho. Assim como o Facebook, Instagram, YouTube, Snapchat, Tumblr, Pinterest e Reddit. O TikTok “internacional” é barrado. Só funciona a versão chinesa.

Google, WhatsApp, YouTube, Instagram, Twitter. Tudo isso é bloqueado pelo governo chinês. Ao mesmo tempo, Pequim mantém exércitos de bots dedicados a fazer propaganda oficial disfarçada mundo afora.

Como a China usa as redes sociais para manipular o debate público

publicado originalmente em superinteressante

Dentes do bebê revelam sofrimento da mãe

Por Bruno Garattoni

Quando a gestante tem depressão ou ansiedade, isso deixa marcas físicas nos dentes do bebê, cujo esmalte apresenta linhas mais espessas. Se a mãe não tiver esses problemas, e sua gravidez for tranquila, essas marcações surgem mais finas.

Foi o que concluíram cientistas da Universidade Harvard (1), que analisaram dentes caninos de leite coletados de 70 crianças entre 5 e 7 anos de idade. As marcas nos dentes, que se chamam “linhas neonatais”, já haviam sido associadas a partos tumultuados ou prematuros, que são altamente estressantes para o bebê – mas é a primeira vez que um estudo relaciona o fenômeno a sintomas psicológicos da mãe.

Fonte 1. Association of Maternal Stress and Social Support During Pregnancy With Growth Marks in Children’s Primary Tooth Enamel. RV Mountain e outros, 2021.

Os dentes possuem marcas chamadas “linhas neonatais” – que mudam de espessura se a gestante tiver depressão ou ansiedade

Dentes do bebê revelam sofrimento da mãe

publicado originalmente em superinteressante

O futuro da Covid

Por Bruno Garattoni

Não era para ser assim. Quando tudo começou, as previsões mais realistas diziam que a pandemia estaria mais ou menos resolvida até meados de 2021, com a vacinação em massa. O Sars-CoV-2 já estava sofrendo mutações, mas lentamente (mérito da nsp14, proteína que funciona como uma espécie de “corretor”, reduzindo a quantidade de alterações genéticas na replicação do vírus). Mesmo assim, uma hora ele começou a evoluir mais rápido, e aí vieram as variantes. As vacinas continuaram funcionando, a situação começou a ser controlada, a vida deu sinais de que poderia voltar ao normal. Então o mundo foi surpreendido pela Ômicron, absurdamente mais contagiosa – a ponto de a OMS prever que, mesmo com vacinas, máscaras e demais medidas, 50% da população da Europa será infectada até o começo de março, e a médica Janet Woodcock, diretora da FDA (a Anvisa dos EUA), ter dito que “a maioria das pessoas vai pegar Covid”.

Se no início da pandemia alguém projetasse um cenário desses, seria tachado de delirante. É importante lembrar disso ao tentar prever o que vai acontecer daqui para a frente. Você deve ter visto por aí a ideia de que a Ômicron pode significar o fim da pandemia (porque se ela contaminar a maioria da população, o vírus não terá mais quem infectar). Pode até ser. Mas talvez essa previsão se revele tão ingênua quanto aquele roteiro inicial previsto em 2020. Enquanto o vírus continuar circulando e infectando muita gente, sempre poderá surgir uma nova variante capaz de mudar o jogo. Ao mesmo tempo, já é possível enxergar um caminho mais concreto para o futuro da pandemia – que começa na quarta dose da vacina. Sim, ela vem aí; e será diferente das atuais.

A evolução da imunidade

As mutações do coronavírus começaram a se tornar um problema com a variante Delta, cuja transmissão as vacinas não conseguiam mais impedir. A solução foi partir para uma terceira dose – com isso, elas voltaram a oferecer mais de 90% de eficácia contra infecção. Ótimo. Pena que a Ômicron acabou com isso. Contra ela, as três doses oferecem bem menos proteção contra o contágio: 67,3%.

Foi o que constatou o Centers for Disease Control (CDC) americano em um estudo com 70 mil pessoas (1). 67% é um número até razoável (e, vale lembrar, a terceira dose da vacina reduz em 90% o risco de Covid grave (2)), mas não será suficiente para frear a circulação do coronavírus – inclusive porque a proteção contra contágio diminui com o tempo, conforme os níveis de anticorpos no sangue vão caindo, e porque esses dois estudos só consideraram as vacinas de RNA (Pfizer e Moderna, que têm maior eficácia e são as mais usadas nos EUA, mas não no resto do mundo).

Então veio a ideia de uma quarta dose. Israel saiu na frente: em dezembro, começou a aplicá-la em todas as pessoas que tivessem mais de 60 anos, algum comprometimento do sistema imunológico ou fossem profissionais de saúde. Não deu o resultado esperado. Uma análise feita no Sheba Medical Center, em Tel Aviv, revelou que a quarta dose da vacina Pfizer eleva em 5 vezes o nível de anticorpos.

Pfizer e Moderna já desenvolveram vacinas adaptadas para a variante Ômicron. Elas poderão ser usadas após três doses do imunizante atual. Mas, no primeiro teste, a vacina da Moderna teve resultados decepcionantes.

É menos do que a terceira (3), que gera um aumento de 8 a 25 vezes (dependendo de quais vacinas a pessoa tomou antes). Mas o maior problema é que ela não consegue impedir o contágio. “Nós vimos muitos infectados pela Ômicron entre os vacinados com a quarta dose”, declarou a epidemiologista Gili Regev-Yochay, coordenadora do estudo. “A conclusão é que a vacina é excelente contra as variantes Alfa e Delta, mas contra a [transmissão da] Ômicron ela não é suficiente”, afirmou.

A Ômicron reacendeu a pandemia. Mas vem aí uma nova geração de vacinas e medicamentos antivirais para combatê-la. Veja como eles prometem mudar o jogo – e até onde as variantes podem ir.

O futuro da Covid

publicado originalmente em superinteressante

Como o FBI usa árvores genealógicas para prender criminosos

Por Maria Clara Rossini

Sacramento, capital da califórnia. Entre 1976 e 1979, os moradores dessa cidade se sentiam dentro de um filme de terror. Agindo sozinho, um criminoso invadia casas (geralmente, de mulheres) durante a noite. Violentava e roubava as moradoras. Quando havia um casal, para garantir que o marido não reagiria, ele deixava o homem de bruços na cama e amarrava uma pilha de pratos às suas costas. Então ameaçava: a qualquer barulho de louça, mataria os dois. Na imprensa, o bandido ficou conhecido como o Estuprador da Área Leste.

Logo no início dos anos 1980, o sul do estado viveu outro pesadelo: um facínora apelidado de Perseguidor Noturno matou pelo menos nove pessoas em um período de dois anos. Assim como o Estuprador da Área Leste, ele estudava as casas antes de invadi-las e quase não deixava pistas.

A polícia só identificou o Golden State Killer em 2018 – após mais de 40 anos de investigação.

Hoje sabemos que os dois eram a mesma pessoa:  Joseph DeAngelo, que aí acabaria ganhando um outro apelido, Golden State Killer (o Assassino da Califórnia – “Estado Dourado” é a alcunha da região). Seu último crime foi cometido em 1986. Coincidentemente, o ano em que o primeiro caso policial foi resolvido usando amostras de DNA, no Reino Unido. E esse poderia ser o caminho: DeAngelo usava luvas para não deixar digitais na cena do crime, porém não tomava tanto cuidado com seu esperma, que foi bem preservado em laboratório.

Mas a polícia só identificou o assassino em 2018, após mais de 40 anos de investigação.  Ele era ex-policial e sabia como acobertar pistas. Seu DNA não batia com nenhum dos perfis armazenados na base de dados genéticos de criminosos dos Estados Unidos. O FBI, então, recorreu à genealogista Barbara Rae-Venter.

Ela já usava genética e genealogia para encontrar os pais biológicos de pessoas adotadas, mas resolver crimes era algo novo. Rae-Venter usou a mesma metodologia com a qual estava acostumada: fez o upload dos dados genéticos do Golden State Killer em uma plataforma aberta chamada GEDmatch, que compara trechos de DNA de diferentes pessoas.

Esse tipo de plataforma existe por causa dos testes de ancestralidade. É o serviço prestado por empresas como a AncestryDNA, a 23andMe, e a brasileira meuDNA. Pessoas comuns mandam amostras de saliva com seu material genético, e então essas companhias comparam o DNA delas com a de outros clientes que fizeram a mesma coisa. E voilà: você pode descobrir que a maior parte dos seus genes veio do sul da África; e eventualmente se há um neto bastardo do seu bisavô vivendo no Canadá.   

Cada empresa tem seu banco de dados privado. Já o GEDmatch é uma espécie de “metasserviço”: clientes que fizeram seus testes pela 23andMe, por exemplo, podem baixar seus dados (em Excel) e fazer o upload lá. Outra pessoa, que testou pela AncestryDNA, faz a mesma coisa. O GEDmatch cruza esses dados e, eventualmente, ambas podem descobrir que são primas em terceiro grau (ou seja: que têm um tataravô em comum).

Um assassinato que o FBI investigava havia 30 anos foi resolvido em duas horas. O segredo: montar a árvore genealógica do criminoso usando o DNA de primos que ele nem conhecia. Entenda como a busca por parentes está revolucionando a resolução de crimes.

Como o FBI usa árvores genealógicas para prender criminosos

publicado originalmente em superinteressante

E se a Revolução Russa não tivesse acontecido?

Por Rafael Battaglia

Em novembro de 1917, aconteceu algo que nem Karl Marx imaginaria: o país mais extenso do mundo (e o terceiro maior em população) passaria a ser administrado por seguidores radicais seus.

Literalmente não imaginaria: a previsão de Marx era a de que as revoluções socialistas começariam justamente nos lugares onde o capitalismo era mais avançado – e que seria liderada por operários, não por intelectuais de um partido político, caso de Lenin e Trotski liderando o Partido Social Democrático Trabalhista Russo (Bolchevique).

Sem a Revolução Russa, nada seria igual, pois não teria havido a Guerra Fria. Sem ela, não haveria internet, porque ela é fruto de um esforço dos militares americanos de criar uma rede capaz de resistir a uma guerra nuclear: a Arpanet. E a exploração espacial talvez estivesse engatinhando ainda, já que ela começou de carona em mísseis intercontinentais.

Também não haveria Chernobyl, a Grande Fome na Ucrânia em 1932, os 20 milhões de mortos no regime de Stalin. Por aqui, não teria Estado Novo ou ditadura militar, nascidos do medo de uma revolução comunista.

Enfim, a Revolução Russa é um evento tão definidor da história que é fácil estender indefinidamente a parte do “não haveria”. Mas o que haveria?

Revolução haveria. Porque o que os revolucionários bolcheviques liderados por Lenin fizeram foi uma revolução dentro de uma revolução.

Em fevereiro de 1917, uma revolta maciça de civis e militares, insatisfeitos com as derrotas da Rússia na Primeira Guerra e a penúria causada por ela, na forma de racionamento de pão, tomou as ruas da capital Petrogrado (hoje São Petersburgo). O czar se viu forçado a abdicar, e os revolucionários declararam a Rússia uma república.

O governo foi formado por uma aliança entre socialistas moderados (Lenin se recusou a participar, pois de moderado não tinha nada). Assumiu como líder provisório o advogado Alexander Kerensky, do Partido Revolucionário Socialista – apesar do nome, uma agremiação não-marxista, que pretendia criar uma democracia liberal.

Kerensky, porém, não atendeu à maior demanda de todas, que era acabar com a guerra. Mais derrotas e mais penúrias se acumularam. Seu governo se revelaria impopular.

Em julho de 1917, uma revolta armada explodiu em Petrogrado. O partido de Lenin foi acusado de causar a violência – na prática, tinha sido uma explosão espontânea de revolta contra a participação desastrosa da Rússia na Guerra. Como resultado, vários líderes do partido foram presos, e Lenin escapou para a Finlândia.

Nesse ponto, os bolcheviques pareciam destinados a entrar para a história como revolucionários frustrados, como na Comuna de Paris de 1871. Até a estupidez de seus adversários mudar sua sorte.

Guerra Fria, Chernobyl, Estado Novo, internet. É fácil listar o que não haveria na ausência de um dos eventos definidores do século 20. Mas o que haveria?

E se a Revolução Russa não tivesse acontecido?

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O laboratório mais seguro (e perigoso?) do mundo

Por Bruno Garattoni

Havia 16 patógenos na lista, escritos em garranchos espalhados pela página. Ao lado de cada um deles estava o período de incubação, o meio de transmissão e a mortalidade esperada. A peste pneumônica, que acontece quando a bactéria Y. pestis infecta os pulmões, estava no topo. Se não for tratada, é letal em 100% dos casos. Abaixo havia alguns nomes de epidemias do passado, como cólera e antraz. Mas o que surpreendeu o general Richard B. Myers foi outra coisa: a maioria dos itens da lista não afetava humanos. Ferrugem do trigo, brusone do arroz, febre aftosa, peste suína. Eram armas biológicas para atacar o sistema global de produção de alimentos.

Myers era o diretor do Joint Chiefs of Staff, o conselho militar mais poderoso dos EUA, quando marines encontraram essa lista num complexo de cavernas no Afeganistão, em 2002. Naquele mesmo ano, outra fonte de inteligência reportou a presença de membros da Al Qaeda no norte do Iraque, onde estavam testando vários patógenos em cães e bodes. “Que eu saiba, eles nunca obtiveram a capacidade de usar [armas biológicas] num contexto de batalha”, afirma Myers. “Eu acho que existem informações, provavelmente confidenciais, que mostrariam a você que não é o caso – mas eu não tenho conhecimento delas, ou não posso falar sobre elas.”

Mas, mesmo se a Al Qaeda tiver desistido, outros grupos parecem ter pegado o bastão do bioterrorismo. Em 2014, um velho laptop Dell encontrado num esconderijo do ISIS no norte da Síria – o “laptop do apocalipse”, como foi apelidado pela imprensa americana – continha instruções detalhadas de como produzir e espalhar peste bubônica por meio de animais contaminados.

O NBAF irá estudar medidas contra ataques bioterroristas – como os planejados pela Al Qaeda.

Para um aspirante a bioterrorista, diz Myers, as fazendas são um “alvo fácil”. Elas têm pouca segurança, e não é especialmente difícil produzir e espalhar patógenos eficazes. A febre aftosa, que tem esse nome porque causa grandes aftas (bolhas) nas línguas, bocas e patas de bois, vacas, porcos e outros animais, é tão contagiosa que a descoberta de um único caso geralmente requer o sacrifício de rebanhos inteiros para evitar que a doença se espalhe.

O setor agrícola também é altamente concentrado: três estados fornecem 75% de todos os legumes e verduras dos EUA, e 2% dos rebanhos bovinos produzem 75% da carne. E, acima de tudo, tanto as plantas quanto os animais são geneticamente uniformes (nos EUA, 25% de todo o gado Holstein descende de apenas cinco touros – sendo que apenas um deles, o Arlinda Chief, é o pai de quase 14%). As plantações e os rebanhos são monoculturas, extremamente vulneráveis a doenças. Um prato cheio para pestes e patógenos. Com ou sem a ação de terroristas, o mundo está tão sujeito a uma pandemia agrícola quanto à Covid-19 – e possivelmente menos preparado para enfrentá-la.

Ele está sendo construído no coração agrícola dos EUA para estudar vírus exóticos, altamente contagiosos e incuráveis. Pode evitar o surgimento de uma pandemia capaz de devastar a produção de alimentos. Ou se tornar a origem dela.

O laboratório mais seguro (e perigoso?) do mundo

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Manual: como começar a ver os clássicos do cinema?

Por Rafael Battaglia

Entenda o contexto

Filmes são um registro do tempo em que foram feitos. Efeitos especiais datados, ritmo lento e o preto e branco são barreiras se você pensar na experiência como entretenimento, mas se tornam informações valiosas se você mudar sua chavinha para entender o longa como um documento histórico.

Escolha filmes…

…com temas universais. Amor sempre foi amor. Listas não faltam: estão em jornais e livros, e diretores famosos sempre revelam suas influências: Martin Scorsese (O Lobo de Wall Street), Spike Lee (Faça a Coisa Certa) e Edgar Wright (Baby Driver), para citar alguns.

Rankings temáticos de clássicos do terror ou musicais ajudam quem curte gêneros específicos. Para encontrar, busque streamings alternativos, como o Mubi. Telecine Play, Looke e Google Play também têm bons acervos de clássicos.

Aprendiz de cinéfilo: uma seleção de dicas (e filmes) para você quebrar a barreira do tempo e aproveitar as grandes obras de arte da telona.

Manual: como começar a ver os clássicos do cinema?

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Vírus da dengue faz mosquitos picarem mais

Por Bruno Garattoni

A doença é causada pelo vírus DENV, que é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti – ele adquire o vírus ao picar uma pessoa infectada, e o transfere para outras ao picá-las. Esse é o ciclo da doença, conhecido há décadas.

A novidade, como revelou um estudo publicado por cientistas da França e de Singapura (1), é que o DENV é capaz de alterar o comportamento do mosquito, fazendo com que ele pique mais vezes e procure mais vítimas – e, com isso, espalhe mais o vírus.

Os pesquisadores colocaram dois grupos de mosquitos em contato com ratos de laboratório, filmaram e analisaram o comportamento deles. Os Aedes infectados pelo DENV atacavam mais ratos do que os mosquitos não-infectados, e a presença do vírus também atrapalhava a sucção do sangue – fazendo com que os mosquitos tivessem de picar mais vezes cada animal para obter a mesma quantidade dele. O estudo calculou que essas duas mudanças aumentam em 300% a capacidade de cada mosquito transmitir o vírus.

Fonte 1. Dengue virus infection modifies mosquito blood-feeding behavior to increase transmission to the host. J Pompon e outros, 2022.

Micróbio altera comportamento do A. aegypti – e triplica capacidade de transmissão.

Vírus da dengue faz mosquitos picarem mais

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Você viajaria 6 mil km atrás de um parceiro? É o que fazem essas baleias

Já pensou percorrer a distância entre São Paulo e Honduras em busca de um companheiro? 

Talvez a distância de 6 mil quilômetros pareça inviável para arranjar um contatinho. Mas algumas baleias-jubarte encaram o desafio, viajando entre o México e o Havaí em uma única temporada de reprodução.

Foi o que descobriu uma equipe de cientistas liderada por James Darling, da Whale Trust Maui (Havaí), uma organização dedicada a pesquisas e programas de educação sobre as baleias e o ambiente marinho. O grupo estudou mais de 26 mil baleias-jubarte que habitam o norte do Oceano Pacífico e publicou suas descobertas na revista Biology Letters.

As baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae) são encontradas em todos os principais oceanos e migram anualmente entre áreas de alimentação, no verão, e áreas de reprodução (em águas mais quentes, próximas à Linha do Equador), no inverno. 

Aquelas que habitam o Pacífico Norte, por exemplo, passam os verões no Alasca e Canadá antes da viagem para regiões próximas ao México e Havaí, onde vão acasalar, parir e amamentar seus filhotes. As baleias se dividem em grupos, e cada um costuma escolher um destino para a temporada de reprodução.

Mas existem algumas evidências de que os grupos se misturam de vez em quando, como canções compartilhadas e registros de baleias que “contrariam” seu grupo e partem para um local diferente em determinado inverno, por exemplo. 

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Darling e seus colegas resolveram investigar melhor como diferentes grupos de baleias do Pacífico Norte podem se sobrepor. Para isso, estudaram um banco de fotos de mais de 26 mil baleias-jubarte, tiradas desde 1977.

As baleias-jubarte têm padrões únicos de manchas e riscos em branco e preto na parte inferior de suas caudas, que permitem a identificação de cada indivíduo pelos cientistas. Então, a equipe analisou os padrões de cada foto, com a ajuda de um software, e reconheceu duas baleias macho que foram fotografadas no Havaí e no México durante a mesma temporada de reprodução.

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Um deles viajou 4.545 quilômetros em 53 dias no ano de 2006, deixando seu grupo em Olowalu, na ilha de Maui (Havaí), para se juntar a outras baleias na Isla Clarión, no México. Outro viajou 5.944 quilômetros em 49 dias, em 2018, partindo de Zihuatanejo (México) até Maui.

As distâncias surpreenderam a equipe de pesquisa e indicam que as baleias-jubarte podem ser muito mais móveis e rápidas do que se pensava. “Elas podem estar viajando pelo oceano como se fosse seu quintal”, afirma Darling à revista New Scientist. “Isso realmente muda a maneira como pensamos sobre as baleias.”

Pesquisadores estudaram registros de 26 mil exemplares da espécie no Pacífico – e descobriram que eles podem ser mais rápidos do que se pensava.

Você viajaria 6 mil km atrás de um parceiro? É o que fazem essas baleias

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Enfeites de casca de ovo de avestruz revelam primeira rede social do mundo

Pequenas contas em forma de rosquinha são um dos artefatos arqueológicos mais encontrados na África. Acredita-se que o Homo sapiens tenha começado a usar contas há 75 mil anos, e a produção de colares pré-históricos com esse material tenha decolado 25 mil anos depois. Feitas com cascas de ovos de avestruz, as contas são o mais antigo ornamento totalmente fabricado por humanos – e ainda hoje são usadas por comunidades tradicionais africanas. Por isso, podem conter grandes revelações sobre o passado da humanidade.

Cientistas do Max Planck Institute, da Alemanha, estudaram mais de 1,5 mil contas, quase idênticas em relação ao formato, tamanho e estilo, e descobriram que elas sustentaram a primeira rede social de que se tem notícia, 50 mil anos atrás.

As contas artesanais apresentam variações de estilo e, por isso, ajudam os arqueólogos a traçar conexões culturais entre diferentes povos ao longo da história. “É como seguir uma trilha de migalhas de pão”, afirma Jennifer Miller, coautora do estudo. “As contas são pistas, espalhadas no tempo e no espaço, apenas esperando para serem notadas.”

Miller se juntou à pesquisadora Yiming Wang, também do Max Planck, para analisar contas de ovos de avestruz que foram encontradas em 31 locais diferentes, no leste e no sul da África – a uma distância de 3 mil quilômetros.

As pesquisadoras descobriram que, entre 50 mil e 33 mil anos atrás, as pessoas dessas regiões distantes usavam acessórios de contas quase idênticas – uma evidência cultural da conexão entre grupos desses lugares.

As contas mais antigas foram encontradas em locais ao leste do continente, então podem ter se espalhado para o sul a partir de lá. Talvez tenham sido trocadas diretamente entre as pessoas, mas o intercâmbio de conhecimento sobre como fabricá-las é mais provável.

E por que essa moda se espalhou? “As pessoas faziam [e usavam] as contas para comunicar mensagens simbólicas, como hoje usamos uma aliança de casamento, para indicar algo sobre status social, riqueza ou posição na sociedade”, afirmou Miller à CNN.

Pessoas que habitavam o leste e o sul da África usaram ornamentos quase idênticos entre 50 e 33 mil anos atrás.

Enfeites de casca de ovo de avestruz revelam primeira rede social do mundo

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