A aventura global dos vikings

Por Rafael Battaglia

Texto Reinaldo José Lopes Ilustração Vini Capiotti 

Design Juliana Krauss Edição Alexandre Versignassi

Por volta do ano 1000 d.C., um monumento funerário foi erguido em Stora Rytterne, no interior da Suécia. As runas gravadas na laje do memorial dizem o seguinte: “Gudleif dispôs o cajado e estas pedras em memória de Slagvi, seu filho, que encontrou seu fim no leste, em Karusm”.

Na primeira olhada, a frase não parece dizer muita coisa, certo? Acontece que a última palavra do epitáfio muda tudo. Para a maioria dos especialistas, “Karusm” provavelmente é uma variação de “Khwarazm”. Esse era o nome de um poderoso reino muçulmano que existia num oásis do atual Uzbequistão, bem no miolo da Ásia. Ou seja: Slagvi, filho de Gudleif, morreu muito longe de casa.

E não foi um caso isolado, como mostram outras inscrições e artefatos espalhados por boa parte da Escandinávia. Durante a chamada Era Viking, entre os séculos 8º e 11º d.C., rapazes do interior da Suécia, bem como da Dinamarca e da Noruega, viraram protagonistas de uma versão medieval do mundo globalizado, espalhando-se por tudo quanto é canto da Eurásia: da Irlanda a Bagdá.

Esses sujeitos agiam como piratas sem o menor escrúpulo em muitas ocasiões, mas também estavam de olho em oportunidades comerciais, viravam-se bem como diplomatas e, de vez em quando, resolviam sossegar e se transformavam em prósperos colonos. Nada disso foi fruto de um grande plano – os viajantes da Escandinávia quase sempre atuavam sem comando central, hierarquia militar, ou aparentes objetivos de longo prazo. Mas suas aventuras acabaram estimulando o surgimento de algumas das nações mais poderosas do planeta nos últimos séculos, como a Inglaterra, a França e a Rússia. Sem os vikings, a trajetória histórica desses lugares poderia ter sido bem diferente.

“Vikingando” por aí

Antes de entender como essa saga (aliás, “saga” é uma palavra escandinava) começou, vale a pena pensar um pouco nos termos que costumamos usar. Acontece que, ao menos na Idade Média, “viking” não era uma palavra empregada como designação étnica ou de “nacionalidade”. “Viking” era simplesmente o sujeito que saía por aí “vikingando”, ou seja, fazendo incursões por mar, que podiam ter objetivos guerreiros ou pacíficos. Se você preferir, pode traduzir mentalmente a palavra para “pirata”, como fizemos no parágrafo anterior.

É importante ter isso em mente porque a Escandinávia do começo da Era Viking não passava de uma grande colcha de retalhos. Eram comunidades pequenas e pouco centralizadas politicamente, lideradas por nobres mixurucas que raramente conseguiam impor sua vontade aos lavradores livres que formavam o grosso da população. Alguns desses nobres e seus vizinhos de status “plebeu” às vezes decidiam sair por aí a “vikingar”, numa espécie de empreendedorismo militar-comercial, quando enxergavam oportunidades interessantes nas terras d’além-mar.

A questão, porém, é desvendar o porquê de tantos grupos, espalhados pelas diferentes comunidades escandinavas, terem descoberto que “vikingar” era bom negócio num momento específico, a partir da segunda metade do século 8º d.C. A convenção adotada pelos historiadores é considerar que a Era Viking começou no ano de 793, quando marujos escandinavos roubaram e massacraram os monges que viviam na ilha de Lindisfarne, no nordeste da Inglaterra, mas é claro que esse primeiro ataque não surgiu do nada. Quais foram os ingredientes que criaram os vikings?

Ainda há um debate considerável sobre o tema, e o fenômeno muito provavelmente teve diversas causas. Mas uma das mais importantes é algo que todo mundo entende com facilidade hoje: mais grana circulando pelo mundo.

Acontece que a Era Viking parece tomar fôlego numa época em que a economia do norte da Europa começa a ter uma fase de crescimento considerável de novo, após alguns séculos de baixa causada pelo fim do Império Romano do Ocidente (em 476 d.C.).

A Escandinávia nunca tinha feito parte dos domínios de Roma, que só iam até o oeste da atual Alemanha, mas as evidências da interação com os romanos são muitas no registro arqueológico da região, e isso certamente envolvia comércio e circulação de pessoas. Guerreiros nórdicos chegaram a virar mercenários a serviço dos exércitos dos Césares e também parecem ter feito parte dos grupos “bárbaros” que invadiram e retalharam o Império. Parte das riquezas saqueadas nesse processo foram parar em solo escandinavo.

Só que essa fonte secou rápido, e a Europa em frangalhos que emergiu da queda de Roma era não só bem mais pobre como muito menos conectada. A simplificação radical da economia e da sociedade só começou a ser revertida lentamente a partir do começo do século 8º, com a construção ou a ampliação de portos mercantes da França à Alemanha, englobando também a costa leste da Inglaterra. Em parte, esse processo foi estimulado pelo fortalecimento do reino cristão dos francos (englobando justamente a região dos novos portos), que alcançaria seu auge com a ascensão do imperador Carlos Magno (747-814).

Lojinha aberta

E dá pra enxergar um processo similar acontecendo no registro arqueológico da própria Escandinávia. Foi no começo do século 8º que ocorreu a fundação de uma vila mercantil dinamarquesa chamada Ribe (que existe até hoje). Usando métodos refinados de datação, cientistas europeus determinaram recentemente como Ribe foi aumentando sua esfera de trocas comerciais com o passar do tempo, seja com outras partes da Escandinávia, seja com as regiões mais ao sul, na esfera de influência dos francos.

“Vemos essa intensificação do comércio marítimo aparecer bem antes dos ataques vikings à Europa Ocidental”, conta Bente Philippsen, pesquisadora da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, autora de um estudo recente sobre o tema. Logo que o pessoal de Ribe abriu suas lojinhas, entre os principais artefatos que circulavam pela região estavam objetos de cerâmica vindos da bacia do rio Reno, que banha a França, a Alemanha e a Holanda de hoje.

Não era só pancada. Combinando diplomacia e comércio, os navegadores escandinavos ajudaram a criar a Rússia, a Inglaterra e a França. De quebra, conectaram o Ocidente com o mundo islâmico.

A aventura global dos vikings

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Entenda de uma vez por todas o que são os alimentos ultraprocessados

Sabe aquela verdade (teoricamente) absoluta de que todo alimento industrializado não é lá muito bom? Então, e se a gente disser que a história nem sempre é assim?

De uns tempos para cá, os ultraprocessados se popularizaram como alimentos “não saudáveis”, ricos em gorduras, açúcares e sal. Mas, especificamente nesses casos, estamos nos referindo aos ingredientes que compõem o produto, e não aos processos em si.

Confuso, né? Calma que vamos esclarecer tudo, tintim por tintim!

Um pouco de história

Os alimentos processados têm feito parte da dieta humana desde tempos antigos. Cientistas da Universidade de Harvard relatam que a primeira técnica foi criada há cerca de 2 milhões de anos, com a descoberta da cocção. Mais tarde, surgiram outros métodos, tais como a fermentação, secagem e salga. Tais técnicas permitiram a formação e a sobrevivência de diversos grupos e comunidades.

Exemplos de processamento

Precisamos falar sobre a produção da NotMayo

Afinal, os produtos da linha são ou não ultraprocessados? Sim, de acordo com as definições estabelecidas, os produtos da linha NotMayo são considerados ultraprocessados. 

Entretanto, em sua composição são utilizados ingredientes de altíssima qualidade e cuidadosamente selecionados. Além de processos que conferem um importante valor nutricional ao produto – sem glúten, colesterol e gordura trans. 

Outro diferencial positivo, é que a produção da NotMayo dispensa as etapas de cativeiro e abate de animais. A seguir, conheça os detalhes desse processo, que é bem semelhante ao feito em casa, mas em nível industrial.  

Pelo bem do planeta e das pessoas

Cinco fatores confirmam: ao consumir a NotMayo, você não perde nada em relação à experiência e ainda consome um produto com uma cadeia de produção consciente.

Os processos garantem a segurança, textura e sabor do produto, mas é importante ir além do termo e saber mais sobre a qualidade dos ingredientes usados

Entenda de uma vez por todas o que são os alimentos ultraprocessados

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Como a biodiversidade e escravidão no Brasil influenciaram o pensamento de Darwin

Por Maria Clara Rossini

Fernando de Noronha é um destino interessante para quem gosta de ciência. Não só pela natureza exuberante, mas também porque esse foi o primeiro pedaço de chão brasileiro que Charles Darwin conheceu. 

O criador da Teoria da Evolução passou só algumas horas no arquipélago, quando o navio HMS Beagle (o mesmo que o levou às Ilhas Galápagos) atracou em 20 de fevereiro de 1832.

Darwin tinha apenas 23 anos. Embarcou no HMS Beagle como “companheiro do capitão” (uma espécie de cargo na época). O tal capitão era um cientista, Robert Fitzroy, e aprovou o jovem naturalista para a vaga. Darwin aproveitaria a expedição para estudar a biologia e a geologia de terras pouco exploradas. A viagem durou cinco anos.

Noronha não impressionou o naturalista. Ele gostou mesmo quando o navio aportou em Salvador. Aí, sim, Darwin ficou sem palavras. Era a primeira vez que via uma de nossas matas por dentro. Ele comparou a garoa inglesa ao toró do Brasil: “Fui surpreendido por uma tempestade tropical. Procurei me abrigar debaixo de uma árvore, cuja copa cerrada seria impermeável à chuva comum da Inglaterra. Aqui, porém, após alguns minutos, uma pequena cachoeira descia pelo enorme tronco”.

Apesar da tromba d’água, ele não se abalou. Em seu diário de viagem, no dia 29 de fevereiro, escreveu que o dia havia transcorrido “deliciosamente”. Mais do que isso: “delícia é termo insuficiente para dar conta das emoções sentidas por um naturalista que, pela primeira vez, se viu a sós com a natureza no seio de uma floresta brasileira”.

O viajante passou o final de fevereiro e a primeira metade de março em Salvador. Sim: Darwin conheceu o Carnaval baiano. Mas, diferente de Feynman, odiou. Na segunda-feira de Carnaval, enquanto dava um rolê pela cidade, o naturalista foi atingido por bolas de cera cheias de água e ficou empapado com sacos de farinha jogados pelos foliões. “Difícil manter a nossa dignidade”.

Origem das espécies brasileiras

Salvador e Rio de Janeiro fizeram parte do itinerário do HM Beagle, navio que levou Darwin a conhecer o mundo. Entenda como as espécies brasileiras e o horror da escravidão o levaram à Teoria da Evolução

Como a biodiversidade e escravidão no Brasil influenciaram o pensamento de Darwin

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Síndrome de Down envelhece o sistema imunológico

Por Bruno Garattoni

A síndrome de Down causa traços faciais característicos e pode provocar atraso no crescimento e dificuldades de aprendizado. Também aumenta o risco de desenvolver doenças autoimunes, em que o sistema imunológico ataca o próprio organismo. Agora, um estudo com 81 portadores da síndrome (1) pode ter descoberto a razão: ela modifica as células T (cuja função é matar células que estiverem infectadas por vírus). Elas deixam o estágio “primário” e passam ao estágio “de memória”.

É um processo normal, que vai acontecendo ao longo da vida conforme pegamos vírus e bactérias – e as células T vão armazenando informações sobre eles. Mas, na síndrome de Down, essa transição é mais rápida: a proporção de células “de memória” aumenta aceleradamente (como se a pessoa fosse mais velha do que realmente é), e elas começam a atacar o próprio corpo. A Super conversou com  o biólogo Bernard Khor, autor principal do estudo, para entender.

Quais são as diferenças no sistema imunológico de quem tem síndrome de Down? Nós observamos fatores associados ao envelhecimento, como o menor número de células T [primárias]. Ao todo, encontramos 651 elementos diferentes entre portadores e não portadores da síndrome. O sistema imune de uma pessoa com Down é entre 5 e 18 anos mais velho em comparação com quem não tem a doença.

Quais doenças autoimunes são mais frequentes nos portadores da síndrome? Mais de 50% deles irão desenvolver tireoidite de Hashimoto [uma inflamação da tireoide que reduz a produção de hormônios] ao longo da vida. As pessoas com a síndrome também têm 4,5 mais chances de desenvolver diabetes do tipo 1 [de origem autoimune], e 6 vezes mais risco de ter doença celíaca. São doenças sem cura. E a expectativa de vida das pessoas com síndrome de Down está aumentando, fazendo com que elas vivam mais que seus pais. Isso é ótimo, mas também significa que elas precisam conviver com essas doenças, às vezes sozinhas, por mais tempo.

Como esse tipo de pesquisa pode ajudar portadores da síndrome de Down?
O nosso estudo é um início, para que possamos começar a perguntar: todas essas [651] diferenças são importantes? Todas causam doenças? Provavelmente não, mas agora sabemos para quais elementos olhar. A partir daí, começamos a ver quais genes estão desregulados e quais remédios e tratamentos poderemos usar.

***

Fonte 1. Deep immune phenotyping reveals similarities between aging, Down syndrome, and autoimmunity. B Khor e outros, 2022.

Condição altera células T, que agem como se a pessoa fosse até 18 anos mais velha.

Síndrome de Down envelhece o sistema imunológico

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Quando a população mundial vai parar de crescer?

Por Maria Clara Rossini

A população mundial vai parar de crescer em 2064, quando a Terra deve abrigar 9,7 bilhões de seres humanos. É o que diz um um artigo do Global Burden of Disease Study, que analisou as taxas de fertilidade, mortalidade e migração de cada país. No gráfico abaixo, confira quando cada nação terá seu pico de moradores.

Clique na imagem para ampliar.

A população do Brasil já está chegando a um platô. Para repor a população atual, cada mulher precisaria ter 2,1 filhos (o 0,1 faz parte do índice considerado pela ONU, para compensar a mortalidade infantil). Hoje, a média brasileira é 1,7.

Alguns motivos explicam a disparidade entre os anos de pico. A taxa de fertilidade dos Estados Unidos, por exemplo, é igual à do Brasil. Mas os americanos devem demorar 20 anos a mais para atingir o pico populacional, graças ao alto índice de imigração. Os EUA são o país com o maior número absoluto de imigrantes no mundo, com 50 milhões de residentes estrangeiros.

Em 2022, a Índia bateu a marca de dois filhos por mulher, o que deve estabilizar a população. A China, devido à política do filho único, atingiu essa meta nos anos 1990.

Um estudo considerou as taxas de fertilidade, mortalidade e migração para determinar quando cada país terá seu pico populacional. Veja quando o mundo (e o Brasil) ficará saturado de gente.

Quando a população mundial vai parar de crescer?

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Esqueleto encontrado em Portugal pode pertencer à múmia mais antiga do mundo

Por Maria Clara Rossini

Nos anos 1960, uma equipe de arqueólogos encontrou treze corpos enterrados no vale do Sado, no sul de Portugal. Os esqueletos estavam em covas de oito mil anos, o que já os torna uma baita descoberta arqueológica por si só. O arqueólogo Manuel Farinha dos Santos tirou fotos em preto e branco, com uma câmera analógica. 

As fotos foram encontradas e reveladas recentemente. Após a análise das imagens e visita ao sítio arqueológico, um grupo de pesquisadores da Suécia descobriu que pelo menos um daqueles corpos foi mumificado – provavelmente para facilitar o transporte até o local do enterro. Isso o torna a múmia mais antiga de que se tem notícia, batendo o recorde anterior por mil anos.

E pasme: o recorde anterior não era do Egito. Ele pertencia às múmias de sete mil anos do povo Chinchorro, encontradas no deserto do Atacama, no Chile. O clima seco do deserto fazia com que alguns corpos sofressem o processo de mumificação naturalmente, enquanto outros eram mumificados artificialmente.

As múmias do Egito só começam a aparecer dois mil anos depois. Apesar de as múmias estarem fortemente atreladas à cultura egípcia, outros povos já dominavam técnicas para retardar a decomposição do cadáver. O processo é mais fácil em locais com condições favoráveis, com clima seco e frio.

Segundo Rita Peyroteo-Stjerna, bioarqueóloga da Universidade Uppsala e uma das autoras do novo estudo, é difícil encontrar múmias na Europa graças ao clima úmido da região. A evidência de mumificação mais recente encontrada na Europa até então datava de 1.000 a.C. É possível que outros corpos encontrados nas covas estejam mumificados.

A descoberta

Sem as fotos tiradas em 1962, é provável que a múmia não fosse descoberta tão cedo. Por meio das imagens, os pesquisadores perceberam que os ossos dos braços e pernas estavam curvados para além do limite natural do corpo – indicando que o indivíduo foi amarrado e “apertado” após a morte, como geralmente se faz no processo de mumificação. As amarras, é claro, já foram decompostas.

Além disso, os ossos e articulações permaneceram no lugar, outra evidência de que o corpo foi enterrado amarrado. Os ossos do pé, em particular, costumam se desprender no processo de decomposição, mas isso não ocorreu no esqueleto encontrado.

O corpo foi enterrado há oito mil anos – pelo menos um milênio antes da múmia mais antiga conhecida até então.

Esqueleto encontrado em Portugal pode pertencer à múmia mais antiga do mundo

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Restrições provocadas pela pandemia evitaram 720 mil casos de dengue, diz estudo

Por Maria Clara Rossini

2020 foi marcado por lockdowns e quarentenas. Além de frear o avanço da covid-19, a restrição de circulação de pessoas também evitou centenas de milhares de casos de dengue na América do Sul e no sudeste asiático. A conclusão é de um estudo do London School of Hygiene and Tropical Medicine, publicado no periódico Lancet este mês.

Mesmo com possíveis subnotificações decorrentes da pandemia, o modelo matemático estimou que 720 mil casos de dengue foram evitados no primeiro ano da pandemia. A pesquisa registrou uma diminuição de casos a partir de abril de 2020, quando as medidas de restrição passaram a ser aplicadas na maioria dos países. Em 2019, mais de cinco milhões de pessoas foram infectadas com dengue ao redor do mundo.

O epidemiologista Oliver Brady, um dos autores do estudo, disse ao The New York Times que ficou surpreso com o resultado. Ele esperava que o número de casos fosse aumentar, já que boa parte dos recursos de saúde foram destinados ao combate à pandemia de covid-19. Mas o que aconteceu foi o contrário.

A explicação é que o fechamento de estabelecimentos, principalmente escolas, evitou que boa parte da população entrasse em contato com o mosquito. Boa parte dos programas de prevenção – que aplicam medidas como eliminar focos de água parada e borrifar inseticida – ocorrem nas residências, onde acredita-se que a transmissão acontece. “Mas se esse fosse o caso, […] as ordens de ficar em casa aumentariam o risco – mas não vemos isso em muitos países”, diz Brady.

O estudo sugere que boa parte das transmissões ocorre em lugares públicos, como escolas e locais de trabalho. Essa informação pode ajudar a direcionar melhor os esforços de controle da doença. 

Além disso, mesmo que alguém fosse contaminado pela doença, a pessoa ficaria em casa e evitaria ser picada por outro mosquito Aedes aegypti. Sem picar uma pessoa infectada, o mosquito não carrega o vírus e não infecta outra vítima.

Quarentena evitou a circulação e o contato de pessoas com o mosquito Aedes aegypti. O estudo ajuda a pensar em estratégias mais eficazes no combate à doença

Restrições provocadas pela pandemia evitaram 720 mil casos de dengue, diz estudo

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Flechas de 1,7 mil anos são reveladas por derretimento de geleira na Noruega

A área coberta por gelo na Noruega diminuiu em 14% nos últimos dezesseis anos, e essa consequência das mudanças climáticas está rendendo várias descobertas aos arqueólogos: conforme as geleiras derretem, surgem objetos deixados por pessoas que viveram nas redondezas há milhares de anos.

A região montanhosa de Sandgrovskardet é um exemplo. Os primeiros achados aconteceram por lá em 2013, mas uma grande expedição de pesquisa só aconteceu em 2018 – porque a equipe envolvida teve de priorizar outros locais com derretimento de geleira, segundo o arqueólogo Lars Pilø.

A missão acaba de ter seu relatório publicado, e os achados da vez foram cinco flechas e 40 esconderijos construídos por caçadores de renas. Três flechas datam de 300 a 600 d.C. e ainda possuem uma ponta de ferro preservada. Das outras, que datam de 800 a.C., restaram apenas as hastes de madeira.

Os esconderijos são formados por uma parede de rocha em forma de semicírculo, atrás da qual os caçadores se escondiam. Eles provavelmente não moravam nesse local, a cerca de 1,8 mil metros acima do nível do mar: os assentamentos ficavam nos vales, e as “estações de caça” nas montanhas.

Os arqueólogos também encontraram 77 ossos e chifres de rena, além de 32 pedaços de madeira chamados de scaring sticks (“gravetos para assustar”), que tinham um papel importante na caça às renas.

Eles são comumente encontrados por arqueólogos glaciais na Noruega junto a flechas. Trata-se de varas de madeira com cerca de um metro de comprimento, que geralmente possuem um objeto leve e móvel preso ao topo, como uma bandeira fina de madeira, que balança com o vento. 

Antes da caça, os caçadores colocavam estes objetos na vertical no gelo, formando uma trilha – da qual as renas se afastariam. Assim, os animais eram conduzidos até o local de esconderijo dos caçadores, de onde estes atiravam as flechas.

Junto às flechas, arqueólogos encontraram esconderijos e outros objetos construídos por caçadores de renas.

Flechas de 1,7 mil anos são reveladas por derretimento de geleira na Noruega

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Brasil registra aumento de 29% no número de raios em relação à 2021

O Brasil é campeão mundial de descargas elétricas: em média, 77,8 milhões atingem o país todos os anos. Desde 2016, o Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) monitora os raios em todo o país – e, agora, encontrou um aumento inédito deles.

Entre janeiro e fevereiro deste ano, foram registrados cerca de 17 milhões de raios no país – sendo 8,8 milhões em janeiro e 8,2 milhões em fevereiro. No mesmo período de 2021, foram registrados, respectivamente, 7 milhões e 6,2 milhões de raios (um total de 13,2 milhões).

O Elat opera uma rede de 110 sensores espalhados pelo Brasil, que mapeiam a incidência e indicam a intensidade das descargas elétricas – tanto aquelas que atingem o solo (os raios) quanto as que ficam entre as nuvens. As últimas são mais frequentes: nos dois primeiros meses deste ano, foram registradas 27 milhões delas. (Você pode entender como elas se formam nesta reportagem da Super.)

O levantamento do Elat também indicou que o estado brasileiro com maior número de raios neste período foi o Amazonas, com cerca de 2,6 milhões. Na sequência, Mato Grosso, Pará, Minas Gerais e Tocantins.

Com exceção de Tocantins, todos esses estados ainda registraram mais de cem mil raios em um único dia, um número considerado “extremamente elevado” pelo grupo de pesquisa. 

Segundo Osmar Pinto Junior, coordenador do Elat, a incidência é explicada pelo fenômeno atmosférico-oceânico chamado El Niño Oscilação Sul (ENOS), com mudanças na temperatura do oceano Pacífico Equatorial. Existem duas situações desse fenômeno: o El Niño deixa as águas mais quentes; o La Niña, mais frias. Neste momento, estamos passando pelo La Niña.

“Estes fenômenos alteram a circulação atmosférica de tal forma que, em anos de La Niña, a ocorrência de tempestades aumenta nas regiões Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste, e diminui na região Sul”, explica o pesquisador à Super

“O oposto ocorre em anos de El Niño, mas a região Sudeste e parte da região Centro-Oeste têm um comportamento mais complexo pois dependem da intensidade dos fenômenos.” 

Aí, como a região Norte é a maior do Brasil, o número de raios aumenta por lá em anos de La Niña, como agora. Certo aumento é esperado – mas não um da intensidade verificada dessa vez. O ano de 2021, inclusive, também foi marcado pelo fenômeno La Niña em intensidade similar à deste ano.

Então, isso não explica o aumento de 29% visto agora. Segundo Osmar, a expectativa era de um aumento contínuo em torno de 2% por ano, e os números observados, ao menos em parte, têm relação com as mudanças climáticas – que bagunçam a circulação atmosférica, temperatura, precipitação do planeta.

De acordo com o Elat, as mudanças climáticas serão responsáveis por um aumento anual na incidência de raios no Brasil. Espera-se que, entre os anos de 2081 e 2100, 100 milhões deles atinjam nosso território por ano – o que pode trazer consequências graves para a tecnologia, como panes em computadores e sistemas de telecomunicação.

17 milhões de raios caíram no país entre janeiro e fevereiro deste ano, contra 13,2 milhões no mesmo período em 2021. Aumento inesperado está relacionado com as mudanças climáticas. Entenda.

Brasil registra aumento de 29% no número de raios em relação à 2021

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Endurance, navio do explorador Ernest Shackleton, é encontrado na Antártida depois de 107 anos

Em 1914, a Expedição Imperial Transatlântica deixou o Reino Unido rumo à Antártida com um objetivo ambicioso: o explorador Ernest Shackleton e os 27 homens sob seu comando queriam ser os primeiros a atravessar o continente gelado a pé. 

A missão, porém, transformou-se em uma luta histórica por sobrevivência – que durou 22 meses e foi concluída com êxito pela tripulação depois que o navio Endurance se chocou contra o gelo no Mar de Weddell, ao leste da Península Antártica, e naufragou em 1915. A Super já narrou essa aventura, e você pode lê-la aqui.

Agora, o navio foi encontrado em condições excelentes de preservação a uma profundidade de 3.008 metros, segundo comunicado publicado nesta quarta (9) pela instituição inglesa Falklands Maritime Heritage Trust (FMHT), que patrocinou a expedição de busca.

O Endurance foi encontrado sete quilômetros ao sul da posição registrada com a ajuda de um sextante pelo capitão Frank Worsley (sextante é um instrumento para medir distâncias, símbolo da navegação marítima). Segundo John Shears, líder da expedição de busca Endurance22, a busca pelo naufrágio foi a mais desafiadora do mundo.

Uma tentativa anterior de encontrar o navio histórico aconteceu há três anos, em uma expedição de seis semanas chamada Weddell Sea Expedition 2019. Na época, muito gelo marinho cobria a região, o que causou a perda de dois veículos de busca submarina e obrigou o retorno da equipe para evitar que o navio quebra-gelo Agulhas II não ficasse preso.

Endurance22 certamente se valeu das lições aprendidas em 2019, mas também teve o clima a seu favor: no mês passado, houve a menor extensão de gelo marinho da Antártida já registrada por satélites.

A missão partiu da Cidade do Cabo, na África do Sul, em 5 de fevereiro. Foi novamente realizada a partir de um Agulhas II e utilizou submersíveis chamados Sabertooth (“dente de sabre”, em inglês), operados remotamente pela equipe do navio. Foram duas semanas de busca em uma área predefinida, baseada nas coordenadas do capitão Worsley.

Embarcação histórica afundou no Mar Weddell em 1915, quando Shackleton e sua tripulação tentaram atravessar a Antártida a pé.

Endurance, navio do explorador Ernest Shackleton, é encontrado na Antártida depois de 107 anos

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